domingo, 29 de dezembro de 2013

Verão e a suspensão da disposição para viver

Basta ouvir a rolinha tocando sua pequena flauta e eu me transporto para o meu verão infantil.
Já não suporto o calor... seus efeitos sobre meu corpo e o pensar preguiçoso.
Só mesmo ouvindo a rolinha para saber que esse mundo me é familiar.
Tudo, absolutamente tudo está no passado.
A única coisa que faço é recordar.
A rolinha escondida em um telhado qualquer me conduz. Seu canto se destaca entre os ruídos desta tarde quente e sufocante. Ela me faz suportar sempre de novo aquilo que me paralisa.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Quando os pássaros cantam ...

Quando Contardo Calligaris escreveu na Folha de São Paulo que a alegria é preferível à felicidade não sabia ele que identificaria em mim uma sensação compatível.
Fiquei pensando na alegria que é estar simplesmente sentada na cama, recostada em travesseiros, inerte a imaginar como é plena a minha satisfação de fazer exatamente isso e não outra coisa quando é disso que agora preciso.

Fiquei pensando em como essa minha cama é íntima, refúgio perfeito que necessito para ouvir alguns pássaros cantantes mais do que roncos de motores de carro ou vozerios de pessoas apressadas a correr não sei para onde, querendo encontrar a mesma alegria que eu.

Fiquei pensando que eu posso pensar sobre meu pensamento ser o que é e entender perfeitamente, pelas palavras de Calligaris, que ...
a riqueza da experiência compensa seu caráter eventualmente penoso.
Essa alegria, de longe preferível à felicidade, é reconhecível sobretudo no exercício da memória, quando olhamos para trás e narramos nossa vida para quem quiser ouvir ou para si mesmo. [...]Para reencantar o mundo, é suficiente descobrir que o verdadeiro encanto da vida é a vida mesmo.


Faz tempo que percebo que escrevo narrando minhas sensações em torno de minha própria vida. Mas tenho me constrangido menos com a sensação de ser um ato narcísico. Estou apenas a narrar minha vida que, se ampla ou resumida, conta uma perspectiva particular. As queixas assim podem tornar-se narrativas que contemplam o vivido ao invés de lamentos pelo que estou deixando de viver.  Como me inspira o próprio Calligaris em outro de seus textos, viajar só é bom se um dia abandonei onde nasci e agora já tanto faz onde estou. Melhor ainda se reencontrar o que dantes foi meu, em outra vida, outro tempo, outro lugar e somar com o presente.  

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Se este momento fugir...o universo não me presenteará com seu retorno.  E assim se fez.
Quando você vem, é como se estivesse do meu lado...
Faço mil afagos e não penso que isso lhe incomoda.
Seguro-lhe fimemente e procuro fechar meus olhos para experimentar longamente sua respiração.
Mas você sempre vai embora, mudo.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A morte comemora a sua chegada há dois meses

Há exatamente dois meses você largou tudo e se foi.
Largou o cigarro, meu deus! Naquela semana você não fumou, eu nem acredito!
Deve ter sido seu maior martírio. Nunca me ocorreu perguntar algo: de quem você gostava mais, de seu cachorrinho ou do cigarro?
Falar de você é tão fácil e esquisito. As coisas mais simples nem existiam para você. Sequer um dia pensamos em conversar coisas assim.
No fim da linha o assunto fazia tempo, tinha se esgotado.
Assistia, dissidente, você mergulhar em si mesma, sem contar seus segredos e seus medos mais profundos.
Quantos dias faltavam?
Quantas noites atormentadas ainda viriam?
Tanto fazia. A vida sempre morou em você sem a devida coragem.
Teve que aceitar derrotada a chuva fria e o sol escaldante.
Quando eu era criança já achava você divertida. Depois você ficou menos consciente ainda.
Eu me sentia sua terapeuta, mas você nem desconfiava minha análise. Era amadoríssima, é claro.
Talvez por sua causa eu tenha aprendido a lutar, tenha aprendido a enfrentar, tenha aprendido a
sobreviver. Selva, selva e selva de pedra, de pedra, de pedra era a sua vida.
De todas as vidas das mulheres, a sua eu não consegui compreender regada a tanta covardia.
Por que você não chorou mais, por que você não os assustou?
Apenas morrer fez você largar o seu grande companheiro: o sabor doce do branco longo.
Esta foi a verdadeira tristeza que tomou a sua vida, a meu ver.

domingo, 24 de novembro de 2013

O Natal e meu desespero

Sempre nesta época do ano...
Ano após ano isso vem se repetindo.
Uma confusa sensação de desconforto em relação ao mundo.
Começo paulatinamente perceber uma agitação.
Parece que muitas pessoas esperam algo novo.
Algumas já sabem com segurança o que as tem alegrado.
Muito bem, que continuem alegres. Que culpam eles têm por se contentarem com tão pouco?
Mas eu não vejo nada de promissor.
Os enfeites para a próxima festa vem ocupando as mentes.
Façamos de conta que a data não existe.
É... a existência ficaria chata consideravelmente.
Nada me convence a pensar sobre essas manifestações preenchedoras de lacunas.
Grandes lacunas que a humanidade vem aprofundando cada vez que a data recomeça a colocar suas expectativas.
E eu lá... perguntando o porquê de tanta euforia.
Seria, a meu ver, tão mais simples terminar o ano com mais calma já que estamos todos cansados de tudo que fizemos todos os dias.
Mas não! O último suspiro de forças esgota o pouco que restou.
E se alguém se nega a comungar... ai desse!
Eu queria escolher participar ou não. Dificilmente poderei me declarar não adepta.
Serei exemplarmente arrastada pelos ânimos que terminam arrasadoramente no dia 25 de dezembro, quando o calor do verão não me deixar dormir ou curtir brisa.
Eu posso querer outra coisa para minha vida, mas não sem que todos ao meu redor exemplarmente me digam que sentem pena de meu desânimo. Desânimo?
Ora, vamos ao que realmente importa.
O que é, por obséquio?

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Você está quando eu quero

Eu fico tão bobamente feliz quando você vem...
O dia, a semana, o mês, o ano, a vida fica tão mais interessante quando você está...
Nem preciso de muita coisa sua...
Nem bem sei o que quero de você...
Não sei se é a pseudopresença ou a ideia de que estamos...
Todas as coisas me dizem que nada de importante há porque eu sinto assim...
É sempre solitário esse sentir.
E ainda assim você me enche de alegria...
Passa a irritação das chatices do dia...
A rotina paralisante se vai quando você está.
Seu silêncio eu comemoro de qualquer maneira.
Acho que às vezes prefiro você assim, calado, mudo, ignorando minha alegria.
Eu fico feliz porque meu objeto de felicidade não está fora de mim.
Por isso até me pergunto para que preciso que você venha.
Se com apenas imaginação eu consigo ser tão alegre quanto imaginar que você está.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

O SENTIDO DA VIDA DE CADA UM: quando a obra supera o seu autor

* Eu sei que não será, nem de longe, como merece ser ou como deveria ser. Mas como dizia uma de minhas professoras do Mestrado "Eu planejei. Às vezes fica uma ... mas eu tentei".


O que hoje me leva a escrever não é recente, ao contrário, pedia umas palavras faz tempo.
Mas ainda agora falta-me algum elemento dessa história.
(A falta sempre remete a uma incompletude que maltrata o mínimo do contentamento).
Talvez esteja eu despreparada para entrever na vida alheia o que salta e que poderia ser pego para compor este texto.
No fim do dilema eu sei que, por desfecho, gostaria de encontrar o pintor Cândido Portinari para perguntar-lhe o que havia no ato de pintar seus quadros de tão visceral a ponto de continuar o seu trabalho, mesmo diante da iminência de um possível envenenamento.
Deveria, sobretudo invocar uma outra vida, que coloco lado a lado com Portinari, quando compartilha com ele a coragem de morrer, se for preciso, por seu destino escolhido.
Esta é, afinal, a história.
Estas são, no meu querer, duas histórias similares.
As vidas destas duas pessoas é que me faz perguntar sobre o sentido que cada um desenha/discursa dar à sua existência.
Eu já aprendi que as pessoas do entorno, seja um filho, um companheiro ou uma amiga querida não mudarão nenhuma das decisões que a pessoa escolheu para conferir sentido aos seus atos.
E antes de chegar ao fim desta tentativa de escrever, dei-me conta de algo que não conseguia ver há dez minutos: de repente o sentido da vida está na obra e não no seu autor.
Por isso, o subtítulo acabou de elucidar o sentido da vida de cada um.
Vida revelada na obra ou vida apesar da obra.
O que você anda escolhendo?


domingo, 21 de abril de 2013

Aventuras vitais em busca de um amor: procure os reticentes*

No dia 20 de outubro de 2009, sob o título "A última fronteira humana", uma mulher escrevia sobre a revogação definitiva de sua insistente descrença acerca da demanda coincidente que intercepta dois seres humanos, ao mesmo tempo, de sentirem-se sintonizados.  E, com isso, desistiu de parar de pensar e resolveu começar a viver por esse caminho.

Agora é outra coisa. Agora é outra vez. Agora eu tenho catorze anos. Eu vou crer.

Minha mãe tentou. Levou-me à igreja e me fez ficar, a saber do que falavam e diziam, que crer era preciso. Crer dava aconchego e sabor. Depois tudo seria mais bonito.

Minhas pernas caminharam por estradas vazias e todas me levaram ao silêncio do nada. Não retornei. Não me fiz feliz nessa caminhada.

Muito se passou...

Retorno agora a perguntar-me se desisti.
Na minha resposta sempre existirá a revogação da negativa.
Quando se busca o amor, melhor encontrá-lo nos reticentes.
Desta fronteira vital beberei e me saciarei.


Este texto é dedicado a Lincoln.

domingo, 7 de abril de 2013

VIDAS NO LIXO, EXPURGO COTIDIANO

Lá no quarto, lá no quarto está a vida que viverei daqui um pouco.
Uma vida que se fará em pensamento, porque guardada, aguarda a hora de entrar em cena.
E as outras vidas que eu poderia ter vivido hoje?
E os roteiros que desprezei titubeando pela dúvida cruel que enclausura as certezas?
Nada disso será revivido. Tudo foi, por paralisação, dispensado. Sequer foi considerado devidamente.
Desta angústia se alimentou  a vida de um dia inteiro.
Duas outras vidas me auxiliam a imaginar como tudo acontece em nós: uma, nas frases de Calligaris, em seu texto na Folha de São Paulo, sob o título "As vidas que deixamos de viver". Outra, a palestra de Clóvis de Barros Filho, sob o título "Ética: da práxis à complexidade", no site CpflCultura. 
Escreve Calligaris:
Algumas vidas não vividas são alternativas descartadas pela inércia da nossa história ou porque o desejo da gente é dividido, e escolher implica perder o que não escolhemos.
Outras são acasos que não aconteceram (é possível passar pela vida sem encontrar ninguém ou encontrando muitos, mas todos na hora errada).
........................................................................................................
Essas vidas não vividas podem nos enriquecer ou nos empobrecer. Elas nos enriquecem quando integram nossa história como tramas alternativas de um romance, incluídas no rodapé da edição crítica.
Melhor ainda, como tramas alternativas às quais o autor renunciou, mas que ele se esqueceu de apagar inteiramente: o herói não vai mais para África no capítulo dois, mas eis que, no capítulo sete, aparece um africano que ele conheceu antes, mas que não se entende de onde vem, a não ser que a gente leia aquela parte do dois que foi abandonada.

Clóvis de Barros Filho, para quem quer fazer ouvidos moucos, grita um pouco para que acordemos, nos alegremos ou desesperemos sobre a ideia mesmo de que viver é escolher, enquanto outras vidas são jogadas no lixo, descartadas, desprezadas, marginalizadas.
E como disse um  poeta catarinense, do qual não me recordo o nome, "viver é uma sucessão de equívocos".
Bem, se assim agora concordamos, é pelo menos essa boa certeza que nos socorre.

sexta-feira, 29 de março de 2013

A ALEGRIA DE NADA SER

Muitos são os caminhos. Conhecemos talvez dois ou três.
Há quem conheça bem mais. Não escrevo para esses.
Escrevo para aqueles que se sentem insignificantes, na solidão
dos grãos de areia fina.
A eles, minha reverência!

quarta-feira, 23 de janeiro de 2013

TPM?




O dia se encaminha para seu final.
Nada o justifica ademais.
Mas eu nem o senti ainda.
Passei por ele incólume.
Por isso ele me pareceu tão sem odor, tão sem sabor, tão sem cor.
Meus braços estão livres tanto quanto os pés que me poderiam carregar para outros lugares.
Mas eu preferi de novo ficar estagnada a contemplar essa insensatez do riso louco e calado.
Nem o sono é devido. Devo-me uma explicação.
TPM (tudo parece marasmo).
Não anseio por atenuantes que me devolvem essa vida.
Não procuro evitar o medo. Quero tocar nele com os dedos e sentir seu gesto distante.
Nem a pensar me dispus. Nem a procurar como fazer para não permanecer nesta inércia.
Hoje, escrever é uma estupidez.

domingo, 20 de janeiro de 2013

VIVER OU ESCREVER?

Os últimos quatro pequenos textos que publiquei não dizem nada.
Eles não conseguem dizer nada do que eu gostaria de ter dito.
São, apesar de registros, divagações e pensamentos soltos sobre um sentir indefinido.
Metáforas da vida, do transcorrer das horas, dos eventos que, supostamente, preenchem nosso vazio humano.
A vida tem a cor do intocável. Do buraco que deixa a dúvida sobre seu fim.
Até parece que o fundo do poço é um lugar ruim. Pelo menos, quando se toca o fundo, é possível dizer que se tocou em algo. Desconcertante é não encontrar o chão para tocar.
Li, pensei, refleti, visualizei como traduzir o vazio dos últimos quatro textos e concluo que todos eles ocultam uma historinha que eu não quis contar.
A pior compararação que posso fazer é entre minha dificuldade de contar as histórias embutidas em cada um dos últimos quatro textos com a dificuldade de Primo Levi, sobrevivente dos campos de concentração, na Segunda Guerra Mundial. Nem um centésimo da infeliz experiência de uma vida assim se compara com o que eu supostamente manifeste da minha. Devo a Jorge Forbes o acesso resumido de como Primo Levi desapareceu por seu escrever:

 É notável o exemplo de Primo Levi, italiano de Turim nascido em 1919, químico brilhante, preso em 1943, e que, por ser químico, conseguiu ficar trabalhando em um campo de concentração na Itália, antes de ir para o horror de Auschwitz. Passado a guerra, em 1947, escreveu um livro chamado “Isto é um Homem?” recusado inicialmente por seu editor, vindo a ser publicado só em 1957. A obra transformou-se em um dos clássicos da literatura mundial pela qualidade da escrita, pela verdade de sua posição e pela não-dramatização do texto. É o relato do dia-a-dia de uma pessoa progressivamente insultada. Em 1987, Primo Levi suicidou-se. Por quê?
[...] Primo Levi suicidou-se porque, ao ter escrito a sua experiência, a vida não lhe era mais suportável. O restante da dignidade humana – quando resta dignidade depois de um campo de concentração - recusou-se de maneira absoluta a uma sociedade capaz de fazer o que fez a seus cidadãos.*

Assim compreendido, sinto-me desencorajada a retomar o que ficou ocultado. Melhor esquecer-me de onde se originaram os sentimentos expressos. Talvez eu apenas quisesse encontrar uma explicação para esses dias em que não se pode escrever, não por falta de ter o que dizer, mas porque não queremos acessar nossas motivações interiores.

É melhor seguir o curso do rio a se debater em dias de cheia.


* Texto de Jorge Forbes, publicado em http://www.jorgeforbes.com.br/br/artigos/para-jorge-semprún.html.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013



SEXTA-FEIRA
É... O hoje chegou
Como tantos outros ...
Eu continuo esperando
que aconteça.

Se houvesse alguma adivinhação de minha parte
Poderia dizer quando tudo começou.
Mas foi assim, descobrindo-me existir
Descontrolada essa construção.

Por tantas ilusões
Vividas no cotidiano dos hojes
Portas e janelas abertas
Por medos e temores, fechei-as uma a uma.

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013


SÊNECA É CÍNICO
 
"Pensa bem, não sabias que desejavas tudo isso
ao querer envelhecer? Tudo isso faz parte do
percurso de uma longa vida, como a poeira, a lama
e a chuva durante uma viagem."*



Ah, Sêneca, se não busco em ti uma justificativa, eu seria condenada a penar sem explicações sobre as ventanias que assolam a minha cabeça sonhadora.

Se Sêneca se desloca do século I, d.C., quem vai conseguir adiantar-se a ele?

É preciso admitir, por antecedência, que algo tem um caminho próprio.

Não...não...não... sou uma mocinha delicada que preferiria permanecer no conforto do abrigo a enfrentar as rajadas de balas, que dilaceram as carnes e fazem buracos negros.

As coisas que não pudemos ver são porque elas estavam ocultas para tanta procura.

* SÊNECA, L. A. Aprendendo a viver, 2009, p. 97.

sábado, 12 de janeiro de 2013

A VIDA POR UM FIO
 
Ligo a televisão com mais frequência nas férias de fim de ano.
Todos os dias sou surpreendida como se vão fáceis vidas e vidas.
São pessoas, têm nome e uma história.
De repente tudo para de existir para essas pessoas e elas começam a ser esquecidas pelos vivos.
Um dia minha vida ficou por um fio.
Sob o efeito da paixão de existir deu-se o momento da total ausência de medo.
Só não sei porque fiquei aqui.


domingo, 6 de janeiro de 2013

QUERO SER OTÁRIA
 
Tenho, desde alguns anos, depois de acompanhar a primeira palestra na TV Cultura, em Maria Rita Kehl uma confiança, como psicanalista, que deposito em poucos profissionais da área.
Assisti hoje uma de suas falas sobre "Psicanálise e drogas" e fiquei sabendo que sou uma otária. Otária, porque, reiteradamente, encontro motivos para sofrer e não ser feliz.
Paradoxalmente, enquanto escutava Kehl falar, experimentava uma intensa felicidade. A felicidade dos otários. Daqueles que querem sofrer pelo seu desejo, pelo sentido de suas vidas. E isso me pareceu prenhe de significado e inspiração.
Examinando minha vida, garanto que fui otária em toda a sua extensão até aqui.
Bem no princípio de minha adolescência, quando os momentos de angústia me levaram a escrever as primeiras impressões sobre a dor de viver, eu fiz uma escolha. Essa escolha me sustenta e me faz supor que a subjetividade é o conteúdo mais importante que devemos investigar em nós.
A despeito do imperativo atual de que só é feliz quem é predador, alerto que a falta faz bem. 

 


sábado, 5 de janeiro de 2013

 
A SEMELHANÇA FICCIONAL ENTRE CALLIGARIS E A.S.:
UMA HISTÓRIA SOBRE VERDADES
 
 
A ficção, justamente, é o que serve para dar
a nossa vida cotidiana a relevância de uma história
 que vale à pena contar.*
 
 
Tenho admirado alguns homens. Pelo menos três. José Saramago, Contardo Calligaris e um professor, amigo de minha mãe, de iniciais A. S. e que se assemelha nas feições e em algum detalhe, ainda não muito esclarecido, com o psicanalista Contardo Calligaris.
 
Saramago ficará para outra vez. Quero me ater a Calligaris, para poder falar de A. S. de modo especial.
 
Eu era criança ainda pequena e esse homem alto, muito magro e um pouco desengonçado parava de carro lá em casa para conversar com minha mãe durante longas horas. Estas conversas me pareciam intermináveis porque, às vezes, estendiam-se até altas horas da madrugada. Eu tinha a impressão de perceber minha mãe um pouco apreensiva pelo adiantado da hora. Mas não garanto se minhas impressões eram muito exatas. Não lembro ouvi-la se queixando que A. S. lhe causasse desconforto por ter tanto assunto quando se encontravam.
Acompanhei essas conversas muitas vezes. O que me mantinha acordada era a eloquência de A.S. Seus trejeitos, seus gestos, a entonação da voz, a dramatização das falas repetidas, o riso solto, as caretas, a saliva incontida na boca, o sotaque da língua alemã muitíssimo carregado... ah, era divertido! Quantas vezes adormeci ao som daquela voz, perguntando-me porque ele não ia para sua casa, porque ele nunca parecia cansado ou enfadado.
Eu cresci acompanhando essa amizade e a atuação no magistério desse homem. Algumas vezes fui à sua casa. Sem filhos, com uma esposa que alcançava a sua cintura, ele desenvolvia atividades de agricultor nas horas de folga, ainda que esse era o trabalho principal de sua esposa e dos pais dela, que moravam na mesma casa.
A.S. também exercia uma outra tarefa em sua comunidade rural. Ele substituía o pastor, quando necessário, nos cultos, nos enterros e em outros eventos da igreja. Era mesmo um homem admirável  pela sua versatilidade. E tudo isso hoje me parece extremamente interessante.
Havia algo, no entanto, que mais me marcou na personalidade de A.S.: era sua extraordinária capacidade de conversar, de contar fatos e histórias com rigor e obstinação.
A expressão de A.S. podia impressionar qualquer pessoa, na época, porém a ninguém mais do que a mim porque depois de tantos anos de sua morte, que foi por um câncer fulminante no pulmão, encontrar Calligaris, que a mim me parece ressuscitar A.S. de alguma forma e com histórico de doença semelhante, ainda que falso, tem algo de intrigante.
Em muitos momentos não sei dizer se assisto os colóquios de Calligaris por seu conteúdo, que deveras me interessa ou se quero fazer de conta que podia ser o professor A.S. falando.
Como a epígrafe sugere, A.S. é um pedaço de minha história que me faz acreditar que se tudo não é verdade, pelo menos beira, já que Calligaris me permite acreditar que não devo me preocupar em separar invenção de verdade. A minha vida por estes dois personagens ficou sendo válida como história que eu posso contar.  
 
 * Fala de Contardo Calligaris num evento em Olinda, sob o título "Nossas ficções de cada dia".

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

TRINTA MINUTOS
 
Pouco tempo...
Muito pouco tempo...
Tenho apenas um pequeno tempo...
Infinitamente mísero esse tempo.
 
Quase não cabe,
Nesse pequeno interlúdio
Espaço para dizer
Que sempre há como.
 
Demora, às vezes, para passarem dias e noites
Tende-se a adiar, a adiantar, a atrasar, a não ir
Quando o relógio não avisa
Sobre como tudo muda num pequeno tempo.
 
Tempo de palavras... de quereres...
De dizer e de ocultar também
Mas no fim, sempre perto do fim
O que se foi, ficou.


quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

 
UMA PEDRA PARA UM POUCO DE CAFÉ


 Num primeiro momento, como em toda desventura, sentimo-nos estranhos. Tudo parece vazio e sem sentido. O chão falta de repente. Vagamos no limbo à procura de nós mesmos, como se tivéssemos esquecido o que nos manteve dentro desse corpo que carregamos e que por acaso tem a nossa identidade.
As horas passam e aos poucos as nuvens pesadas e o vento turbulento dão lugar a uma nesga de céu azul, que nos chama à terra e nos enche com um sopro de realidade.
Quando os pés tocam o solo, quando os pés reconhecem esse solo, vem-me à memória um filme que assisti há alguns anos e que me acompanhou até aqui a ponto de citá-lo. O diretor Alek Keshishian muito bem retratou o papel do personagem Simon, interpretado pelo ator Joe Pesci, como um "bom" desistente. Foi com esse filme que aprendi a minha primeira grande lição sobre "desistência". 
No filme, de título "Com mérito", o termo é resultado da avaliação com nota máxima ao trabalho acadêmico do personagem principal. Na minha perspectiva, o mérito ia a outro lugar. O mérito estava no valor da experiência que cada situação propiciava a Simon, um fracassado professor universitário, que chegou a lecionar em Harvard. Umas das falas de Simon, no filme, me comoveu em especial, ao dizer "Depois de Harvard, é só decadência". Simon terminava a vivência de uma experiência recolhendo uma pedra no caminho.  Esse conjunto marca alguma resignação, é verdade.
Às vezes uma etapa se encerra e não nos resta mesmo outra coisa além de uma dura e impessoal pedra. Marcaríamos um momento que contribuiu para que nos tornássemos diferentes a partir daquele ponto.
E ainda que tudo pareça incongruente, não haveria demérito em recuar diante de uma situação, quando ela já nos proporcionou o suficiente.
Esqueci a pedra de novo, mas não há porque lamentar. Tomemos um café.  
 
 
 
    

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

 
DESCOBRIR OU INVENTAR
 
Yalom (2008), gentilmente, esclarece-me algo que ele deduziu em sua atuação profissional como terapeuta. Classificou as pessoas, quanto às formas de dar sentido às suas vidas, em quatro grupos: as que são instigadas pela vida por uma visão de triunfo vingativo; as imersas no desespero e por isso sonham com a paz, o desapego e o libertar-se da dor; as que dedicam a vida ao sucesso, ao poder ou à verdade; as que buscam a autotranscendência e daí mergulham numa causa ou em outro ser; as que encontram sentido numa vida de prestação de serviços, no pleno desenvolvimento pessoal ou na expressão criativa.
Demorei e não encontrei meu grupo. Nem bem sei se estou convencida da minha leitura. Suponho que em parte sim e foi lá no quarto grupo que me visualizei. Entretanto, não por ver minha conduta e minhas atitudes assemelhadas com a descrição de Yalom. Outrossim, pelo que Yalom escreve no parágrafo seguinte: "Precisamos da arte, disse Nietzsche, para que a verdade não nos destrua".
E daí?
Qual o meu contato com a arte?
Quais habilidades tenho no manejo de um instrumento musical ou no eco na minha voz?
Que técnicas e qual erudição adquiri sobre as artes visuais?
Em que peça de teatro ou filme atuei que me consagrou?
Enfim, o que eu faço em meu viver que lembra a arte? Arte no seu sentido mais estético, puro, rico de expressão subjetiva da humanidade...
Talvez minha vida seja um desejo mais que uma arte sempre que me angustio e me resolvo pela escrita. Contraditória também. Sem arte e desconhecendo a verdade.
Descubro a inventar-me mais um grupo: os enganáveis. 

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

UM SOPRO QUENTE DE LIBERDADE *
 
você exercer o seu talento ... coragem de enfrentar a angústia da indefinição. [...] você se acovardar ... múltiplas escolhas [...] alegria do talentoso ... alegria genérica... ter a tranquilidade de ser um genérico ... a inquietude do exercício do seu talento... talento todo mundo tem ... maior inimigo do talento é a covardia.**

Não sei se é porque estou solta, nesse começo de janeiro, que me sinto tão cheia de vento.
Certamente é tudo uma grande invenção dentro de mim.
Ainda que não saia de meu espaço tão restritivo, faz um tempo cheio de cinza que minha alma não voa tão alto.
E tudo é porque estou aqui a escrever.
Venho pedir, solenemente, aos deuses um pouco de talento para expressar minha poesia.
Encho-me de liberdade e me reconheço nessa angústia constante.
Que bom que ela nunca me abandona.
Minha reverência respeitosa por sentir angústia.

* Um verso da música "Un soffio caldo", cantada por Zucchero.
** Palavras de Jorge Forbes, em entrevista http://www.jorgeforbes.com.br/br/entrevistas/a-angustia-da-responsabilidade.html, com as devidas alterações, necessárias aos objetivos de meu texto.