A SEMELHANÇA FICCIONAL ENTRE CALLIGARIS E A.S.:
UMA HISTÓRIA SOBRE VERDADES
A ficção, justamente, é o que serve para dar
a nossa vida cotidiana a relevância de uma história
que vale à pena contar.*
Tenho admirado alguns homens. Pelo menos três. José Saramago, Contardo Calligaris e um professor, amigo de minha mãe, de iniciais A. S. e que se assemelha nas feições e em algum detalhe, ainda não muito esclarecido, com o psicanalista Contardo Calligaris.
Saramago ficará para outra vez. Quero me ater a Calligaris, para poder falar de A. S. de modo especial.
Eu era criança ainda pequena e esse homem alto, muito magro e um pouco desengonçado parava de carro lá em casa para conversar com minha mãe durante longas horas. Estas conversas me pareciam intermináveis porque, às vezes, estendiam-se até altas horas da madrugada. Eu tinha a impressão de perceber minha mãe um pouco apreensiva pelo adiantado da hora. Mas não garanto se minhas impressões eram muito exatas. Não lembro ouvi-la se queixando que A. S. lhe causasse desconforto por ter tanto assunto quando se encontravam.
Acompanhei essas conversas muitas vezes. O que me mantinha acordada era a eloquência de A.S. Seus trejeitos, seus gestos, a entonação da voz, a dramatização das falas repetidas, o riso solto, as caretas, a saliva incontida na boca, o sotaque da língua alemã muitíssimo carregado... ah, era divertido! Quantas vezes adormeci ao som daquela voz, perguntando-me porque ele não ia para sua casa, porque ele nunca parecia cansado ou enfadado.
Eu cresci acompanhando essa amizade e a atuação no magistério desse homem. Algumas vezes fui à sua casa. Sem filhos, com uma esposa que alcançava a sua cintura, ele desenvolvia atividades de agricultor nas horas de folga, ainda que esse era o trabalho principal de sua esposa e dos pais dela, que moravam na mesma casa.
A.S. também exercia uma outra tarefa em sua comunidade rural. Ele substituía o pastor, quando necessário, nos cultos, nos enterros e em outros eventos da igreja. Era mesmo um homem admirável pela sua versatilidade. E tudo isso hoje me parece extremamente interessante.
Havia algo, no entanto, que mais me marcou na personalidade de A.S.: era sua extraordinária capacidade de conversar, de contar fatos e histórias com rigor e obstinação.
A expressão de A.S. podia impressionar qualquer pessoa, na época, porém a ninguém mais do que a mim porque depois de tantos anos de sua morte, que foi por um câncer fulminante no pulmão, encontrar Calligaris, que a mim me parece ressuscitar A.S. de alguma forma e com histórico de doença semelhante, ainda que falso, tem algo de intrigante.
Em muitos momentos não sei dizer se assisto os colóquios de Calligaris por seu conteúdo, que deveras me interessa ou se quero fazer de conta que podia ser o professor A.S. falando.
Como a epígrafe sugere, A.S. é um pedaço de minha história que me faz acreditar que se tudo não é verdade, pelo menos beira, já que Calligaris me permite acreditar que não devo me preocupar em separar invenção de verdade. A minha vida por estes dois personagens ficou sendo válida como história que eu posso contar.
* Fala de Contardo Calligaris num evento em Olinda, sob o título "Nossas ficções de cada dia".