sábado, 28 de novembro de 2009

Amor é coisa de menina...




Compreender-se mulher na infinita manifestação do que o humano pode ser e se tornar, requer leituras. É recorrente, também, existirem mulheres que nunca o farão. Eu, porém, continuo trilhando esse caminho do autoconhecimento, como uma saga.

Estou a ler, com alegria e entusiasmo, "Deslocamentos do feminino", de Maria Rita Kehl. A obra é resultado da sua pesquisa de doutorado e por isso, bastante densa e elucidativa no que diz respeito à compreensão de como nós, mulheres, construímos, ao longo da história, grande parte de nossa feminilidade. Na página 93, Kehl se debruça sobre um aspecto que me interessa particularmente, porque bem pode iluminar as razões de minha escrita ser preferencialmente autobiográfica. Ela escreve: "[...] gênero muito difundido no século XIX, este sim exclusivamente feminino - da 'escrita de si ', gênero confessional herdado do hábito solitário dos diários e das cartas, cultivado pelas mulheres em seu isolamento doméstico".
Teria a escrita uma função narcótica, termo que a autora utiliza no mesmo parágrafo, para lidar com as inseguranças e instabilidades da vida moderna? Os séculos anteriores ao XIX não representaram evidência de que as mulheres utilizaram a leitura e a escrita como recurso para denunciar as condições das quais eram portadoras. Porém, o século XIX inaugura definitivamente a presença feminina nos meios literários e elas o fizeram da forma como podiam.

As reflexões sobre o livro de Kehl de novo me remeteram a pensar sobre as mulheres e o amor. Teria o amor também uma função narcótica? Estaria o amor convocado para abater o frio que provoca a modernidade em todas nós? Sou eu parte do isolamento doméstico ao transformar minha escrita de mais de trinta anos em um solitário hábito de gênero confessional?

É bem provável que a resposta seja positiva, contudo, isto não me incomoda. O que me incomoda e pelo qual tenho antipatia e mal-estar é quando ouço depoimentos de mulheres que acreditam agir de modo dependente como que atendendo a algum tipo de desígnio fatal, concebido como próprio de nossa natureza, portanto dado e imutável e por isso autoritário.

Só consigo pensar em fazer duas perguntas:
- O que será que os homens deixaram de ganhar ao não serem expostos ao amor?
- O que será que as mulheres perderam ao serem expostas prioritariamente aos caprichos do coração?

Quanto a mim, deparo-me com algo, no livro de Kehl, que me deixou feliz, ainda que ser mulher no século XXI não constitua nenhum direito ao amor por destino: a possibilidade de escrever. Escrever para traçar o próprio destino. É isso que Emma Bovary invejava nos homens, segundo Naomi Schor.

sexta-feira, 27 de novembro de 2009

O tempo paulatino do amor


Às vezes eu sou de acreditar.


Quando o amor tem de acabar, ficamos ainda parecendo gotas d'água, retardadas nas folhas das árvores. A chuva já parou, faz tempo. No entanto, essas pequenas formações alongadas e transparentes ainda conseguem gotejar quando já ninguém mais espera que elas estejam lá.


Um lampejo me faz crer que o amor é como as árvores: frondosas, imponentes, fortes, sossegadas. Depois da chuva, as águas, em suas folhas, não tem pressa de ir.

O buraco que encontrou uma tampa


Uma coisa foi colocada no lugar do que se perdeu um dia no infinito inconsciente humano. Essa coisa substituta chama-se amor. Alguns chamam-na de "Deus" e a todo momento o invocam. Deus serve para todos os momentos de insegurança. Não adianta, está lá.


O amor, a coisa que veio substituir, ou Deus, pode até ter outro nome, funciona, sobretudo, como uma ponte que liga o "eu" com aquilo que dantes estava preenchido. Da falta, dessa sequer se desconfiava.


O amor quer preencher, a todo custo. Melhor dizer, com um custo sempre. E como somos 6 bilhões, é claro que nem todos o conseguem.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Palavras são palavras... o que te digo?


De repente pode-se mudar a perspectiva sobre o próprio pensamento pensado há anos. Os estudiosos da área da psicanálise ajudam o seu tanto.


"[...] o sujeito vem à luz quando fala, mas não qualquer palavra, nem de qualquer lugar. [...] O inconsciente [...] interfere no discurso". (Kehl, 2008, 25-6).


Que palavras são essas?


Para o neurótico, mesmo quando ele fala, o discurso é dos outros sobre ele. É a ressonância imaginária do homem.


domingo, 8 de novembro de 2009

Como dizer "te amo" sem palavras?


Maria Rita Kehl, em seu livro
"Deslocamentos do feminino", conduz-me a novas questões sobre a nossa humana condição, no que concerne ao uso da língua para expressar o que se vai conosco.


Nas pegadas de Saussure, a autora modifica a visão entre a "faculdade da linguagem", própria da espécie humana e a "língua" propriamente desenvolvida. Afirma ela que a língua não pode ser considerada uma manifestação da linguagem de um sujeito isolado e sim o resultado de uma massa falante, obedecendo a rumos diversos em cada época e em cada cultura. E, o que me parece mais pertinente ao ponto em que quero chegar, a língua é relativamente permeável às intervenções dos sujeitos. Dito de outra forma por Kehl, a linguagem articulada é "modificável ao longo do tempo em função de novas configurações sociais que demandam expressão".


Justificadas teoricamente as perguntas subsequentes, então quando escolho dizer "eu te amo", para expressar de uma vez por todas a minha entrega a um alguém, que, presumo, reconhecerá o seu significado, não estarei eu apenas dizendo o que já, quando sai de minha boca, se convencionou um clichê? Uma representação consensual da limitada condição humana em que me encontro e não uma frase que surtirá um efeito encantador no ouvinte?


Quantas vezes ao dia sou apenas a encarnação de um amontoado de frases que aprendi a dizer para me fazer existir e ser um pouco mais inteligível?


Que voz é essa que não tem sintaxe própria e que não pode deixar de dizer "eu te amo" ainda que pareça absolutamente banal?

segunda-feira, 2 de novembro de 2009

Seguindo Schopenhauer, pensando por mim mesma


Eu me dedico ao pensamento com interesse puramente subjetivo. Não tenho pretensões de ajudar alguém com isso, senão a mim mesma, porque viver de cara contra a parede do vazio não é fácil.

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Substituir os livros por outras coisas: o fazer contínuo. Quem nunca para de fazer, nunca se encontra consigo mesmo. E afirmo, o encontro consigo mesmo é muito triste e estranho. Não há genialidade em mim, senão uma estagnação revoltante. A vontade de estar comigo é mínima.

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Quando sabemos que nossos pensamentos são autênticos? Tudo que expressamos, foi, de certa forma, incorporado do exterior. Afirmar que existem pensamentos originais, é saber de onde eles são provenientes.

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Quem lê, procura algo. Às vezes, por si mesmo.

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Da minha janela eu vejo um mundo enquadrado. Assim, ele sempre se apresenta da mesma forma.

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Quando meus pensamentos começam a se repetir, está na hora de ler. Ler para descansar da perseguição de meu próprio pensamento.

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Tenho um grande pudor em admitir de que sou meu grande tema. Para que perder tempo com essa banalidade? Porém, sempre chego ao mesmo pensamento.

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Eu tenho um pensamento. Eu não tenho um corpo.

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O meu pensamento tem um problema insolúvel: o sentido da existência. Desconfio que os bons escritores tenham se afastado de pensar sobre e, para amenizar a recorrente não resposta, escrevem para nos entreter. Saramago, você é um deles!


*Estes pensamentos foram inspirados no texto de Schopenhauer: "Pensar por si mesmo".

domingo, 1 de novembro de 2009

Schopenhauer e o que ele me faz perguntar


Ou, para pensar, basta um querer ou, para pensar, é necessário muita leitura.

Seria interessante admitir que não se consegue escrever, ao invés de enganar os leitores de que se tem algo a dizer.

Será o que escrevo é uma desculpa para falar do vazio que pode representar a vida para certas pessoas? Será, por isso, que eu acho ridículo o que dizem sobre a beleza da vida?

Mas, para que afinal ensino? O que vai na frente? O que importa que eu esteja ensinando? É possível que a obrigação seja tão assustadora que me faz parar de questionar o valor da função de ensinar? Poucos vão me responder...

É possível ensinar uma forma de viver e não acreditar nela?

Ora, se o que leio e escrevo não deveria servir mais aos outros do que a mim mesma, então os escritores correm o risco de serem pouco lidos, porque todos os leitores devem formular suas ideias. E porque me dá satisfação perguntar tanto?

Talvez, quem escreva, queira, ainda que não transpareça, dar um pouco de estímulo a sua própria existência.

E se o que escrevo não serve a mais ninguém, senão a mim mesma?