Hoje de manhã perdi o sabor das frutas porque pensei em outra coisa
Na madrugada perdi o sono porque pensei que estava acordada, andando e projetando as soluções dos enigmas dos vivos
Nos últimos anos perdi as fotografias que não tirei porque esperava ficar mais bonita
Perdi a ingenuidade porque esperei que as amizades tornassem a vida mais leve e o que vejo é sempre o mesmo drama
Perdi-me e me perco todos os dias, vai embora a vida como se ela passasse num estreito vão onde não cabemos
E eu penso em não perder de novo
Mas a perda é a única coisa que eu tenho.
Devo perder as certezas, trocá-las pelo ater-me num banco de madeira da praça
Devo perder a lamentação das perdas, deixar que o vazio me console e eu não chorar
Nada se repetirá. Tudo é sempre novo. Se antes fugia para enganar a sensação de perda, hoje perco para me encontrar.
Todo dia eu perco a viagem, o tempo, a saudade.
Já não preciso aproveitar grande coisa. Serei tranquila e com menos peso.








