segunda-feira, 22 de setembro de 2025

PERDER

 Hoje de manhã perdi o sabor das frutas porque pensei em outra coisa

Na madrugada perdi o sono porque pensei que estava acordada, andando e projetando as soluções dos enigmas dos vivos

Nos últimos anos perdi as fotografias que não tirei porque esperava ficar mais bonita

Perdi a ingenuidade porque esperei que as amizades tornassem a vida mais leve e o que vejo é sempre o mesmo drama

Perdi-me e me perco todos os dias, vai embora a vida como se ela passasse num estreito vão onde não cabemos

E eu penso em não perder de novo

Mas a perda é a única coisa que eu tenho.

Devo perder as certezas, trocá-las pelo ater-me num banco de madeira da praça

Devo perder a lamentação das perdas, deixar que o vazio me console e eu não chorar

Nada se repetirá. Tudo é sempre novo. Se antes fugia para enganar a sensação de perda, hoje perco para me encontrar.

Todo dia eu perco a viagem, o tempo, a saudade. 

Já não preciso aproveitar grande coisa. Serei tranquila e com menos peso.  




segunda-feira, 8 de setembro de 2025

SE EU VOLTAR... AINDA ENCONTRAREI POR LÁ AS PALAVRAS QUE NÃO ESCREVI

 "O escritor está sempre escrevendo", afirma Rosa Montero, (principalmente, digo eu), continua ela, "quando não está com o lápis e o papel na mão". Como não escrever mentalmente diante de lugares como esse?



 E quanto pesar em meu corpo pela efêmera passagem, pela falta de tempo e de destreza para memorizar as sensações sentidas diante das cores, dos cheiros, dos jeitos das coisas vistas! O escritor volta com um texto em imagens, capturadas porque elas contém o texto invisível de seu devaneio. 



Escrever é um ato de coragem e boa vontade. Tenho freios e invento desculpas para não me aproximar do caderno e da caneta. Escrever nunca pode me parecer uma obrigação quando se refere a minha escolha. É... "todos escrevemos sobre o que os outros já escreveram" diz Montero, ao ler Sergio Pitol. Eu acho que um diário foge um pouco disso porque a vida de cada um é única. Procurei, nos últimos dez anos, escrever em formato de diário para garantir alguma originalidade, ainda que, o que escrevi é a milionésima repetição de todos e de tudo o que me precedeu.