quarta-feira, 23 de janeiro de 2013
TPM?
O dia se encaminha para seu final.
Nada o justifica ademais.
Mas eu nem o senti ainda.
Passei por ele incólume.
Por isso ele me pareceu tão sem odor, tão sem sabor, tão sem cor.
Meus braços estão livres tanto quanto os pés que me poderiam carregar para outros lugares.
Mas eu preferi de novo ficar estagnada a contemplar essa insensatez do riso louco e calado.
Nem o sono é devido. Devo-me uma explicação.
TPM (tudo parece marasmo).
Não anseio por atenuantes que me devolvem essa vida.
Não procuro evitar o medo. Quero tocar nele com os dedos e sentir seu gesto distante.
Nem a pensar me dispus. Nem a procurar como fazer para não permanecer nesta inércia.
Hoje, escrever é uma estupidez.
domingo, 20 de janeiro de 2013
VIVER OU ESCREVER?
Os últimos quatro pequenos textos que publiquei não dizem nada.
Eles não conseguem dizer nada do que eu gostaria de ter dito.
São, apesar de registros, divagações e pensamentos soltos sobre um sentir indefinido.
Metáforas da vida, do transcorrer das horas, dos eventos que, supostamente, preenchem nosso vazio humano.
A vida tem a cor do intocável. Do buraco que deixa a dúvida sobre seu fim.
Até parece que o fundo do poço é um lugar ruim. Pelo menos, quando se toca o fundo, é possível dizer que se tocou em algo. Desconcertante é não encontrar o chão para tocar.
Li, pensei, refleti, visualizei como traduzir o vazio dos últimos quatro textos e concluo que todos eles ocultam uma historinha que eu não quis contar.
A pior compararação que posso fazer é entre minha dificuldade de contar as histórias embutidas em cada um dos últimos quatro textos com a dificuldade de Primo Levi, sobrevivente dos campos de concentração, na Segunda Guerra Mundial. Nem um centésimo da infeliz experiência de uma vida assim se compara com o que eu supostamente manifeste da minha. Devo a Jorge Forbes o acesso resumido de como Primo Levi desapareceu por seu escrever:
É notável o exemplo de Primo Levi, italiano de Turim nascido em 1919, químico brilhante, preso em 1943, e que, por ser químico, conseguiu ficar trabalhando em um campo de concentração na Itália, antes de ir para o horror de Auschwitz. Passado a guerra, em 1947, escreveu um livro chamado “Isto é um Homem?” recusado inicialmente por seu editor, vindo a ser publicado só em 1957. A obra transformou-se em um dos clássicos da literatura mundial pela qualidade da escrita, pela verdade de sua posição e pela não-dramatização do texto. É o relato do dia-a-dia de uma pessoa progressivamente insultada. Em 1987, Primo Levi suicidou-se. Por quê?
[...] Primo Levi suicidou-se porque, ao ter escrito a sua experiência, a vida não lhe era mais suportável. O restante da dignidade humana – quando resta dignidade depois de um campo de concentração - recusou-se de maneira absoluta a uma sociedade capaz de fazer o que fez a seus cidadãos.*
Assim compreendido, sinto-me desencorajada a retomar o que ficou ocultado. Melhor esquecer-me de onde se originaram os sentimentos expressos. Talvez eu apenas quisesse encontrar uma explicação para esses dias em que não se pode escrever, não por falta de ter o que dizer, mas porque não queremos acessar nossas motivações interiores.
É melhor seguir o curso do rio a se debater em dias de cheia.
* Texto de Jorge Forbes, publicado em http://www.jorgeforbes.com.br/br/artigos/para-jorge-semprún.html.
Eles não conseguem dizer nada do que eu gostaria de ter dito.
São, apesar de registros, divagações e pensamentos soltos sobre um sentir indefinido.
Metáforas da vida, do transcorrer das horas, dos eventos que, supostamente, preenchem nosso vazio humano.
A vida tem a cor do intocável. Do buraco que deixa a dúvida sobre seu fim.
Até parece que o fundo do poço é um lugar ruim. Pelo menos, quando se toca o fundo, é possível dizer que se tocou em algo. Desconcertante é não encontrar o chão para tocar.
Li, pensei, refleti, visualizei como traduzir o vazio dos últimos quatro textos e concluo que todos eles ocultam uma historinha que eu não quis contar.
A pior compararação que posso fazer é entre minha dificuldade de contar as histórias embutidas em cada um dos últimos quatro textos com a dificuldade de Primo Levi, sobrevivente dos campos de concentração, na Segunda Guerra Mundial. Nem um centésimo da infeliz experiência de uma vida assim se compara com o que eu supostamente manifeste da minha. Devo a Jorge Forbes o acesso resumido de como Primo Levi desapareceu por seu escrever:
É notável o exemplo de Primo Levi, italiano de Turim nascido em 1919, químico brilhante, preso em 1943, e que, por ser químico, conseguiu ficar trabalhando em um campo de concentração na Itália, antes de ir para o horror de Auschwitz. Passado a guerra, em 1947, escreveu um livro chamado “Isto é um Homem?” recusado inicialmente por seu editor, vindo a ser publicado só em 1957. A obra transformou-se em um dos clássicos da literatura mundial pela qualidade da escrita, pela verdade de sua posição e pela não-dramatização do texto. É o relato do dia-a-dia de uma pessoa progressivamente insultada. Em 1987, Primo Levi suicidou-se. Por quê?
[...] Primo Levi suicidou-se porque, ao ter escrito a sua experiência, a vida não lhe era mais suportável. O restante da dignidade humana – quando resta dignidade depois de um campo de concentração - recusou-se de maneira absoluta a uma sociedade capaz de fazer o que fez a seus cidadãos.*
Assim compreendido, sinto-me desencorajada a retomar o que ficou ocultado. Melhor esquecer-me de onde se originaram os sentimentos expressos. Talvez eu apenas quisesse encontrar uma explicação para esses dias em que não se pode escrever, não por falta de ter o que dizer, mas porque não queremos acessar nossas motivações interiores.
É melhor seguir o curso do rio a se debater em dias de cheia.
* Texto de Jorge Forbes, publicado em http://www.jorgeforbes.com.br/br/artigos/para-jorge-semprún.html.
sexta-feira, 18 de janeiro de 2013
SEXTA-FEIRA
É... O hoje chegouComo tantos outros ...
Eu continuo esperando
que aconteça.
Se houvesse alguma adivinhação de minha parte
Poderia dizer quando tudo começou.
Mas foi assim, descobrindo-me existir
Descontrolada essa construção.
Por tantas ilusões
Vividas no cotidiano dos hojes
Portas e janelas abertas
Por medos e temores, fechei-as uma a uma.
segunda-feira, 14 de janeiro de 2013
SÊNECA É CÍNICO
"Pensa bem, não sabias que desejavas tudo isso
ao querer envelhecer? Tudo isso faz parte do
percurso de uma longa vida, como a poeira, a lama
e a chuva durante uma viagem."*
Ah, Sêneca, se não busco em ti uma justificativa, eu seria condenada a penar sem explicações sobre as ventanias que assolam a minha cabeça sonhadora.Se Sêneca se desloca do século I, d.C., quem vai conseguir adiantar-se a ele?
É preciso admitir, por antecedência, que algo tem um caminho próprio.
Não...não...não... sou uma mocinha delicada que preferiria permanecer no conforto do abrigo a enfrentar as rajadas de balas, que dilaceram as carnes e fazem buracos negros.
As coisas que não pudemos ver são porque elas estavam ocultas para tanta procura.
* SÊNECA, L. A. Aprendendo a viver, 2009, p. 97.
sábado, 12 de janeiro de 2013
A VIDA POR UM FIO
Ligo a televisão com mais frequência nas férias de fim de ano.
Todos os dias sou surpreendida como se vão fáceis vidas e vidas.
São pessoas, têm nome e uma história.
De repente tudo para de existir para essas pessoas e elas começam a ser esquecidas pelos vivos.
Um dia minha vida ficou por um fio.
Sob o efeito da paixão de existir deu-se o momento da total ausência de medo.
Só não sei porque fiquei aqui.
domingo, 6 de janeiro de 2013
QUERO SER OTÁRIA
Tenho, desde alguns anos, depois de acompanhar a primeira palestra na TV Cultura, em Maria Rita Kehl uma confiança, como psicanalista, que deposito em poucos profissionais da área.
Assisti hoje uma de suas falas sobre "Psicanálise e drogas" e fiquei sabendo que sou uma otária. Otária, porque, reiteradamente, encontro motivos para sofrer e não ser feliz.
Paradoxalmente, enquanto escutava Kehl falar, experimentava uma intensa felicidade. A felicidade dos otários. Daqueles que querem sofrer pelo seu desejo, pelo sentido de suas vidas. E isso me pareceu prenhe de significado e inspiração.
Examinando minha vida, garanto que fui otária em toda a sua extensão até aqui.
Examinando minha vida, garanto que fui otária em toda a sua extensão até aqui.
Bem no princípio de minha adolescência, quando os momentos de angústia me levaram a escrever as primeiras impressões sobre a dor de viver, eu fiz uma escolha. Essa escolha me sustenta e me faz supor que a subjetividade é o conteúdo mais importante que devemos investigar em nós.
A despeito do imperativo atual de que só é feliz quem é predador, alerto que a falta faz bem.
sábado, 5 de janeiro de 2013
A SEMELHANÇA FICCIONAL ENTRE CALLIGARIS E A.S.:
UMA HISTÓRIA SOBRE VERDADES
UMA HISTÓRIA SOBRE VERDADES
A ficção, justamente, é o que serve para dar
a nossa vida cotidiana a relevância de uma história
que vale à pena contar.*
Tenho admirado alguns homens. Pelo menos três. José Saramago, Contardo Calligaris e um professor, amigo de minha mãe, de iniciais A. S. e que se assemelha nas feições e em algum detalhe, ainda não muito esclarecido, com o psicanalista Contardo Calligaris.
Saramago ficará para outra vez. Quero me ater a Calligaris, para poder falar de A. S. de modo especial.
Eu era criança ainda pequena e esse homem alto, muito magro e um pouco desengonçado parava de carro lá em casa para conversar com minha mãe durante longas horas. Estas conversas me pareciam intermináveis porque, às vezes, estendiam-se até altas horas da madrugada. Eu tinha a impressão de perceber minha mãe um pouco apreensiva pelo adiantado da hora. Mas não garanto se minhas impressões eram muito exatas. Não lembro ouvi-la se queixando que A. S. lhe causasse desconforto por ter tanto assunto quando se encontravam.
Acompanhei essas conversas muitas vezes. O que me mantinha acordada era a eloquência de A.S. Seus trejeitos, seus gestos, a entonação da voz, a dramatização das falas repetidas, o riso solto, as caretas, a saliva incontida na boca, o sotaque da língua alemã muitíssimo carregado... ah, era divertido! Quantas vezes adormeci ao som daquela voz, perguntando-me porque ele não ia para sua casa, porque ele nunca parecia cansado ou enfadado.
Eu cresci acompanhando essa amizade e a atuação no magistério desse homem. Algumas vezes fui à sua casa. Sem filhos, com uma esposa que alcançava a sua cintura, ele desenvolvia atividades de agricultor nas horas de folga, ainda que esse era o trabalho principal de sua esposa e dos pais dela, que moravam na mesma casa.
A.S. também exercia uma outra tarefa em sua comunidade rural. Ele substituía o pastor, quando necessário, nos cultos, nos enterros e em outros eventos da igreja. Era mesmo um homem admirável pela sua versatilidade. E tudo isso hoje me parece extremamente interessante.
Havia algo, no entanto, que mais me marcou na personalidade de A.S.: era sua extraordinária capacidade de conversar, de contar fatos e histórias com rigor e obstinação.
A expressão de A.S. podia impressionar qualquer pessoa, na época, porém a ninguém mais do que a mim porque depois de tantos anos de sua morte, que foi por um câncer fulminante no pulmão, encontrar Calligaris, que a mim me parece ressuscitar A.S. de alguma forma e com histórico de doença semelhante, ainda que falso, tem algo de intrigante.
Em muitos momentos não sei dizer se assisto os colóquios de Calligaris por seu conteúdo, que deveras me interessa ou se quero fazer de conta que podia ser o professor A.S. falando.
Como a epígrafe sugere, A.S. é um pedaço de minha história que me faz acreditar que se tudo não é verdade, pelo menos beira, já que Calligaris me permite acreditar que não devo me preocupar em separar invenção de verdade. A minha vida por estes dois personagens ficou sendo válida como história que eu posso contar.
Em muitos momentos não sei dizer se assisto os colóquios de Calligaris por seu conteúdo, que deveras me interessa ou se quero fazer de conta que podia ser o professor A.S. falando.
Como a epígrafe sugere, A.S. é um pedaço de minha história que me faz acreditar que se tudo não é verdade, pelo menos beira, já que Calligaris me permite acreditar que não devo me preocupar em separar invenção de verdade. A minha vida por estes dois personagens ficou sendo válida como história que eu posso contar.
* Fala de Contardo Calligaris num evento em Olinda, sob o título "Nossas ficções de cada dia".
sexta-feira, 4 de janeiro de 2013
TRINTA MINUTOS
Pouco tempo...
Muito pouco tempo...
Tenho apenas um pequeno tempo...
Infinitamente mísero esse tempo.
Quase não cabe,
Nesse pequeno interlúdio
Espaço para dizer
Que sempre há como.
Demora, às vezes, para passarem dias e noites
Tende-se a adiar, a adiantar, a atrasar, a não ir
Quando o relógio não avisa
Sobre como tudo muda num pequeno tempo.
Tempo de palavras... de quereres...
De dizer e de ocultar também
Mas no fim, sempre perto do fim
O que se foi, ficou.
quinta-feira, 3 de janeiro de 2013
UMA PEDRA PARA UM POUCO DE CAFÉ
Num primeiro momento, como em toda desventura, sentimo-nos estranhos. Tudo parece vazio e sem sentido. O chão falta de repente. Vagamos no limbo à procura de nós mesmos, como se tivéssemos esquecido o que nos manteve dentro desse corpo que carregamos e que por acaso tem a nossa identidade.
As horas passam e aos poucos as nuvens pesadas e o vento turbulento dão lugar a uma nesga de céu azul, que nos chama à terra e nos enche com um sopro de realidade.
Quando os pés tocam o solo, quando os pés reconhecem esse solo, vem-me à memória um filme que assisti há alguns anos e que me acompanhou até aqui a ponto de citá-lo. O diretor Alek Keshishian muito bem retratou o papel do personagem Simon, interpretado pelo ator Joe Pesci, como um "bom" desistente. Foi com esse filme que aprendi a minha primeira grande lição sobre "desistência".
No filme, de título "Com mérito", o termo é resultado da avaliação com nota máxima ao trabalho acadêmico do personagem principal. Na minha perspectiva, o mérito ia a outro lugar. O mérito estava no valor da experiência que cada situação propiciava a Simon, um fracassado professor universitário, que chegou a lecionar em Harvard. Umas das falas de Simon, no filme, me comoveu em especial, ao dizer "Depois de Harvard, é só decadência". Simon terminava a vivência de uma experiência recolhendo uma pedra no caminho. Esse conjunto marca alguma resignação, é verdade.
Às vezes uma etapa se encerra e não nos resta mesmo outra coisa além de uma dura e impessoal pedra. Marcaríamos um momento que contribuiu para que nos tornássemos diferentes a partir daquele ponto.
E ainda que tudo pareça incongruente, não haveria demérito em recuar diante de uma situação, quando ela já nos proporcionou o suficiente.
E ainda que tudo pareça incongruente, não haveria demérito em recuar diante de uma situação, quando ela já nos proporcionou o suficiente.
Esqueci a pedra de novo, mas não há porque lamentar. Tomemos um café.
quarta-feira, 2 de janeiro de 2013
Yalom (2008), gentilmente, esclarece-me algo que ele deduziu em sua atuação profissional como terapeuta. Classificou as pessoas, quanto às formas de dar sentido às suas vidas, em quatro grupos: as que são instigadas pela vida por uma visão de triunfo vingativo; as imersas no desespero e por isso sonham com a paz, o desapego e o libertar-se da dor; as que dedicam a vida ao sucesso, ao poder ou à verdade; as que buscam a autotranscendência e daí mergulham numa causa ou em outro ser; as que encontram sentido numa vida de prestação de serviços, no pleno desenvolvimento pessoal ou na expressão criativa.
Demorei e não encontrei meu grupo. Nem bem sei se estou convencida da minha leitura. Suponho que em parte sim e foi lá no quarto grupo que me visualizei. Entretanto, não por ver minha conduta e minhas atitudes assemelhadas com a descrição de Yalom. Outrossim, pelo que Yalom escreve no parágrafo seguinte: "Precisamos da arte, disse Nietzsche, para que a verdade não nos destrua".
E daí?
Qual o meu contato com a arte?
Quais habilidades tenho no manejo de um instrumento musical ou no eco na minha voz?
Que técnicas e qual erudição adquiri sobre as artes visuais?
Em que peça de teatro ou filme atuei que me consagrou?
Enfim, o que eu faço em meu viver que lembra a arte? Arte no seu sentido mais estético, puro, rico de expressão subjetiva da humanidade...
Talvez minha vida seja um desejo mais que uma arte sempre que me angustio e me resolvo pela escrita. Contraditória também. Sem arte e desconhecendo a verdade.
Descubro a inventar-me mais um grupo: os enganáveis.
terça-feira, 1 de janeiro de 2013
UM SOPRO QUENTE DE LIBERDADE *
você exercer o seu talento ... coragem de enfrentar a angústia da indefinição. [...] você se acovardar ... múltiplas escolhas [...] alegria do talentoso ... alegria genérica... ter a tranquilidade de ser um genérico ... a inquietude do exercício do seu talento... talento todo mundo tem ... maior inimigo do talento é a covardia.**
Não sei se é porque estou solta, nesse começo de janeiro, que me sinto tão cheia de vento.
Certamente é tudo uma grande invenção dentro de mim.
Ainda que não saia de meu espaço tão restritivo, faz um tempo cheio de cinza que minha alma não voa tão alto.
E tudo é porque estou aqui a escrever.
Venho pedir, solenemente, aos deuses um pouco de talento para expressar minha poesia.
Encho-me de liberdade e me reconheço nessa angústia constante.
Que bom que ela nunca me abandona.
Minha reverência respeitosa por sentir angústia.
* Um verso da música "Un soffio caldo", cantada por Zucchero.
** Palavras de Jorge Forbes, em entrevista http://www.jorgeforbes.com.br/br/entrevistas/a-angustia-da-responsabilidade.html, com as devidas alterações, necessárias aos objetivos de meu texto.
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