UMA PEDRA PARA UM POUCO DE CAFÉ
Num primeiro momento, como em toda desventura, sentimo-nos estranhos. Tudo parece vazio e sem sentido. O chão falta de repente. Vagamos no limbo à procura de nós mesmos, como se tivéssemos esquecido o que nos manteve dentro desse corpo que carregamos e que por acaso tem a nossa identidade.
As horas passam e aos poucos as nuvens pesadas e o vento turbulento dão lugar a uma nesga de céu azul, que nos chama à terra e nos enche com um sopro de realidade.
Quando os pés tocam o solo, quando os pés reconhecem esse solo, vem-me à memória um filme que assisti há alguns anos e que me acompanhou até aqui a ponto de citá-lo. O diretor Alek Keshishian muito bem retratou o papel do personagem Simon, interpretado pelo ator Joe Pesci, como um "bom" desistente. Foi com esse filme que aprendi a minha primeira grande lição sobre "desistência".
No filme, de título "Com mérito", o termo é resultado da avaliação com nota máxima ao trabalho acadêmico do personagem principal. Na minha perspectiva, o mérito ia a outro lugar. O mérito estava no valor da experiência que cada situação propiciava a Simon, um fracassado professor universitário, que chegou a lecionar em Harvard. Umas das falas de Simon, no filme, me comoveu em especial, ao dizer "Depois de Harvard, é só decadência". Simon terminava a vivência de uma experiência recolhendo uma pedra no caminho. Esse conjunto marca alguma resignação, é verdade.
Às vezes uma etapa se encerra e não nos resta mesmo outra coisa além de uma dura e impessoal pedra. Marcaríamos um momento que contribuiu para que nos tornássemos diferentes a partir daquele ponto.
E ainda que tudo pareça incongruente, não haveria demérito em recuar diante de uma situação, quando ela já nos proporcionou o suficiente.
E ainda que tudo pareça incongruente, não haveria demérito em recuar diante de uma situação, quando ela já nos proporcionou o suficiente.
Esqueci a pedra de novo, mas não há porque lamentar. Tomemos um café.

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