sábado, 31 de dezembro de 2011

Bons e maus sofredores


Muitas e muitas horas de minha vida foram gastas, incluindo datas comemorativas como a de hoje, dia 31 de dezembro de 2011, faltando 8 minutos para o dia 1º de janeiro de 2012, para que pudesse reconhecer que sou uma "boa" sofredora (pretendo esclarecer até o fim deste texto o sentido exato de "boa").

Boa sofredora é aquela pessoa que consegue dar um sentido racional a seu sofrimento. O sentido racional vem quando o sofrimento se transforma em ideias. Esta noção nos empurra para uma percepção clarificada da realidade.

O sofrimento a que me refiro é inerente a todos os seres humanos, se bem que uns tendem a experimentar sofrimentos mais densos e dramáticos do que outros. Estou falando de uma condição que sugere estar agarrada a nossa pele e por mais que nos reviremos, ela estará lá, presa como uma extensão da epiderme.

Geralmente a leitura vem fazendo o papel de terapeuta em minha vida. Leio quando estou sofrendo. Sofro quando algo me angustia. Angustia-me, facilmente, a minha existência. Desta forma, a leitura tornou-se ato de ir ao encontro do conhecimento, o que me proporciona uma sensação de grande liberdade. Sofrer, nessa perspectiva, é diferente que sofrer na concepção de sofredor comum, isto é, aquele que não necessita conhecer para melhorar o seu sofrimento. Como alguém pode querer melhorar um sofrimento? Não seria, em tese, exterminar com ele?

Preciso esclarecer que uma leitura em especial vem me segurando a mão muito firmemente para que eu possa escrever este texto. Trata-se do livro "Como Proust pode mudar sua vida" de Alain de Botton. E é justamente uma passagem na obra de Proust que Botton me ceifa: "As ideias são sucedâneos dos desgostos; tornando-se ideias, perdem estes parte de sua ação nociva sobre o coração" (Michel PROUST. O tempo redescoberto, p. 181).

Ora... se é possível arrumar o sofrimento em prateleiras , por cor e tamanho, data e vilão, tornando-o aceitável e assim intelígivel, por que ainda há maus sofredores? Por que não há escolas especializadas ou pelo menos cadeiras acadêmicas para ensinar as pessoas a transformar o que dói em reações mais proveitosas? Por que precisamos envelhecer o corpo e rejuvenescer o espírito para aprender a sofrer inteligentemente? Por que não nos ensinaram que divagar, sonhar, chorar, atrasar, interpretar, pensar, retomar, escrever, falar, dormir, calar, ler, admirar, rir, amar melhora nossa condição de maus para bons sofredores?

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

Minhocas no sorvete*

"Para mim, apenas amanhece e anoitece", disse-me um psicopata certa vez (na época eu pensava que essa pessoa era absolutamente livre das imposições do mundo criado pela humanidade - e era mesmo, só não estava em coerência com a sanidade aceitável).

Mas...afinal, se empresto o tempo mesmo da natureza, todos os dias serão iguais em seu sentido último. O fim do ano está chegando e, pelo calendário, muitas coisas se encerram e outras iniciam. Tanto faz se quero apenas o amanhecer e o anoitecer. Colocarei minhocas vermelhas no meu sorvete, prolongarei meu descanso, sentirei o dia passando como bem ele quer.

Ao rever outros dezembros e minhas impressões escritas sobre eles, sinto satisfação ao reler como eles foram. Esse dezembro de agora é ímpar e o do ano que vem será igualmente, ao seu modo, diferente. É só esperar...

*Minhocas são aquelas balas de goma retorcidas que se vendem nas sorveterias. Faz meu sorvete ser lembrado a muitos quilômetros.

domingo, 27 de novembro de 2011

Invisibilidade e presença

Rapidamente...
Antes que se torne uma fuga
Antes que a emoção perca sua razão
Escrevo, segurando esse minuto.
Esse minuto que não retornará com essa intenção.
Saudades de algo que não nasceu,
De mim mesma, que não quer voltar.

A música vai ofertando um sentimento...
Que se perdeu no meu infinito ser.
Ali, logo dentro de mim,
Está tudo o que procuro,
Não consigo materializar o sonho.

Volta uma alegria tão bonita
das noites frias e distantes,
de minha adolescência cheia de vida
um sorriso para essa lembrança.

Se eu pudesse, segurava esse momento
e ofertava-me-o de volta
só para ver minha alegria
retornando quando uma grande esperança
povoava minhas certezas vindouras.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Quero o nada


Às vezes é assim: a inspiração vai embora, quando não se tem a obsessão do poeta Manoel de Barros, ainda que de lixo se faz a maior parte de minhas ideias. Eu só não sei buscar desinteressadamente o descartado como tema de interlúdios constantes.

Hoje busco alguma palavra. Mas não a encontro, em lugar algum. Elas estão dissolvidas, misturadas ao pó do chão, trituradas nos passos de meu desprezo. Nem bem as vislumbro e elas já evaporaram na inutilidade. Minha alma está vazia e estagnada. Mas ontem eu li: "[...] o homem preferirá o nada a nada querer" (NIETZSCHE, Genealogia da moral, p. 149).

Enquanto me desenraizo no desespero do confronto com o vazio, o meu nada está recheado de vontades. Negadas, obscurecidas, ludibriadas pela provocação do nada são, o meu nada preenche esta folha.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

O que você é capaz de fazer por alguém?

Acabei de ouvir Frejat cantar aquela canção "Por você".
Seu conteúdo elenca uma série de loucuras ou quase isso que alguém poderia fazer por outra pessoa.
Recentemente tenho me convencido, com a ajuda de Martha Stout, que isso poderia ser caracterizado como atitude típica da exigência de um sociopata para com quem escolheu como sua vítima.

Quem faz as loucuras pelos sociopatas somos nós, seres de consciência e afetos.

A poesia, a música, enfim a arte faz um amálgama entre realidade e fantasia, que, quando bem dosado, é aquilo que faz dar sentido a nossas vidas. Ao contrário da doença social do maníaco. Bem longe da suposta fantasia hilariante e sedutora do sociopata.
Mas... o que faço por alguém, que se passa dentro do segredo dos meus pensamentos e não consigo contar a ninguém?
Quanta energia dispendo para alimentar minhas fantasias, no intuito de imaginar-me desejada por quem eu desejo?
Que responsabilidades adio para continuar me sentindo atrelada a quem eu acredito me dar hora dessas a mesma dedicação?
Por que me abstenho da maioria dos movimentos em direção ao meu prazer pessoal para não me distrair do que a pessoa nem me diz?
Como consigo me manter tão fiel à representação de que não ando paranoica?
Se a arte puder me respaldar não precisarei pensar que tudo foi loucura.
Pelo menos tentei me manter entre o real e a fantasia e, com isso, não entristecer tanto.

quarta-feira, 12 de outubro de 2011

Sinopse ou leitura densa


Na sala escura, os livros dormem, silenciosos, guardando nas entrelinhas os segredos de quem os escreveu.
As estrelas dormem acesas um sono longínquo e desinteressado, enquanto as páginas grudadas fixam suas frases perdidas na eternidade.
Mesmo que a brisa sopre forte, mesmo que as folhas despenquem, nada perturba o descanso das histórias.
Na noite úmida, as personagens saem das estantes e dançam suas saudades num espaço concedido pelo passado.
Os livros dizem tudo de si mas quem os lerá quando o dia amanhecer?
Quando o sol convidar para sair à rua sem a sombra da escuridão?
Quem vai parar para tocar suas texturas?
Quem quererá se ficar um pouco mais?
Quem passará da sinopse e lerá suas histórias mais densas?
Não importa: haverá leitores diversos.
Aos que param nas sinopses bastará reconhecer.
Os que penetrarem nas profundezas sempre levarão um pouco dos livros consigo.




Não sei se desconhecer é antagônico à pouca profundidade.
Falas soltas, sorrisos fáceis, pensamentos leves...
Assim tem de ser?
* M. U.

terça-feira, 4 de outubro de 2011

Cinza

Há muitos anos senti a maior dor que a vida pode nos fazer experimentar.
Ela me conduziu a conhecer o máximo que eu poderia aguentar.
Pensei que depois... eu estaria imune a qualquer violência.
Que tudo o que me acometesse seria infantilização do caos.
Pode ser!
Mas por que ainda tenho que me lembrar até hoje que eu já passei das portas do inferno,que eu senti minha carne queimar, sem achar a água para minimizar o calor?
Parece que sofrer tudo de uma vez não nos deixa imunizados para todo o sempre.
As dores são multifacetadas e tem muitas tonalidades de cinza.
Sim, a dor é cinza. A mistura de preto e branco.
Não é por acaso que viramos cinza.

sábado, 1 de outubro de 2011

Por favor, não me faça feliz

Nos anos em que fui feliz, nada pude escrever.
Se fosse feliz, não escreveria agora.
Minha vida é completa de faltas.
Todas elas fazem-me muita dor.
Mas sem as dores somos estúpidos.
Perls (1977) diz que a grande obra de arte é real e, ao mesmo tempo, ilusão.
A fantasia permeia a criação sob um mundo real. Só o mundo real, não é possível.
Só fantasia, e não estabeleceremos credibilidade alguma.

quarta-feira, 28 de setembro de 2011

Um pouco de espaço e um pensamento


Não é preciso que o ar falte de tanta aproximação...
Se você tiver um pensamento e um pouco de espaço
Poderá conhecer a melhor das sensações.
Não sei se é pela coincidência de desejos
nem pela intuição que flui dos corpos.
Mas algo está lá!
Para onde quer que você olhe,
aquilo acompanha.
Mesmo quando não se pensa nela,
mesmo quando se faz algo bem díspar.
Não sei,está lá.
O pensamento escondido, conforta aqueles momentos
em que o espaço é tão grande que um outro mundo podia caber nele.
Você se move, sem amarras... o segredo é que agora há o espaço.
Nessa liberdade você sorri e sai correndo com seu pensamento.

quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Qual o sentido dos sentidos?


Lá de vez em quando somos cortados ao meio.
Já sabíamos que ia doer.
Outras coisas, alegraram.
Algumas foram difíceis de degustar.
O cheiro, bem, o cheiro dos momentos construímos literalmente muito antes de nos acometer a sensação de que nosso faro nos enganou.
Seguimos... atolados nas ideias centenárias sobre como vemos as pessoas e o que das pessoas está no mundo.
O mundo sem as pessoas seria diferente.
Sempre há pessoas que vivem num mundo criado por elas.
Sempre e nunca pude ter um mundo só para mim.
Sempre, quando escrevo.
Nunca, quando acredito.
Já não importa a coerência ou a concordância.
Não vejo nada reto.
Frio ou quente, seguiu morno.
Só não perco o contato comigo mais.
Só silencio se puder buscar a coragem de calar.
Não quero gritos e nem lamúrias.
O mundo é uma imensidão de sentidos vagos.

segunda-feira, 12 de setembro de 2011

Meu presente



"[...]o simples gesto de sorrir [...] é usado para transmitir informação. Os próprios olhos sofrem uma mudança geral e podem ser descritos como brilhantes e faiscantes.*

Prefiro pensar que tudo estava completo na hora do sorriso recíproco e admitir a simplicidade que é ser feliz, às vezes, sem pretensões soberbas de avolumar o momento com adendos que ele não exigiu.

*Conforme descrição de H. Pollio, p. 40, in “O Poder do Riso - em um antídoto contra a doença em - Mariana Funes - Ed. Ground - 2001 - São Paulo)

quarta-feira, 25 de maio de 2011

A estética da decepção: adeus às berinjelas


"[...]
Então, desanimamos. Adeus,tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?"
(Carlos Drummond de Andrade, 1954).

Tenho vergonha de minha atitude alienada
por entregar minhas horas e dias,assim,
tão relapsamente, às pessoas que, julgo,
podem me preencher supostamente.

Tenho vergonha de me abandonar
à felicidade efêmera e rasa,
quando sei que ela me afasta de minhas
entranhas em feridas desde sempre.

Tenho vergonha de me deixar cegar
com falsos dizeres sobre o que devo
crer ser minha vida melhor vivida.

Tenho vergonha de me abandonar
e me deixar pedindo socorro para
que não morra a melancolia
essência única que me faz valer estar.

Tenho vergonha de admitir que deixei
passar lágrimas e pensamentos desesperados
diante de outras consciências que gritavam
suas verdades ao meu redor.

Tenho vergonha dessa palidez costumeira
ter dado lugar ao céu vivo e pássaros voando
quando se pode prever que um dia há
de ser de chuva triste e o outro também.

Tenho vergonha de admitir que desliguei
o relógio do tempo para dar lugar a uma vida
que qualquer um podia matar.

Tenho vergonha de ser, assim, reincidente
em meus erros e, na decepção dessa hora,
pedir para eu voltar.

quarta-feira, 16 de fevereiro de 2011

Se eu não estivesse obcecada pelo medo...

... aventurar-me-ia a observar quais sítios infinitos o ser humano pode ocupar;


... ficaria acordada até tarde, enfrentando, no dia seguinte, cansaço e sono, não me preocupando tanto em parecer superdisposta;


... envolver-me-ia com pessoas sem me preocupar quem elas são e as esqueceria na mesma noite;


... sairia na rua a esta hora e comeria uma comida bem indigesta, mesmo sabendo que amanhã é segunda-feira.

Sempre para J.L.C.B.

sábado, 8 de janeiro de 2011

Coragem derrotada

Eu sucumbi e chorei, sem a certeza de ter um sorriso sobressalente guardado para me surpreender.
Admito que novamente ultrapassei meus frágeis limites, e não sei se poderei fazer de conta que não era tão importante o que eu ia acrescentar a minha experiência.
Eu não entendo meu sofrimento, preciso encontrar uma criança para me recordar que um dia fui inocente e livre.
Estou encolhida de tanto povoar meus pensamentos de saudade, fazendo das noites de sono meu refúgio.
Eu não realizei o mísero desejo de subtrair o medo de viver de minha existência, e mal reconheço meus antigos caminhos e, com desesperado esforço, tento recordar as pegadas.
Eu não quero ter medo. E, de repente, a coragem me enganou.