domingo, 18 de setembro de 2016

Descontente com a realidade


Uma irritante sensação de irritação de novo me invadiu nesse anoitecer de domingo.
Como se me faltasse algo de difícil detecção.
Um doce que não adoçava suficiente o amargo da língua travada pelo indizível.
Um tempo que não conseguia se explicar por sua duração infinita.

Estou descontente com a realidade. É. É isso que está sendo dito pelo domingo.

No fundo não é nada disso. É muito mais libertador. É uma descoberta fantástica que de descontente
me causou um profundo alento. Pois que achava estava fora, está aqui e sempre esteve: o ser amado não existe. Não existe. Não existe ser. Nem amado. Amado ser. Ser amado. Existir, ser. Não e não.

Não aceito essa realidade e escrevo isso. Não aceito e protesto. Grito através dessas palavras. Tudo é um motivo para desfazer o que se impõe. A realidade é horrível. Produz-me choro e desconsolo. Faz-me sentir pequena e desmedida. Pensa que sou intransigente. Que procuro o impossível.

O ser amado não existe. Ele nunca quis ser. Ele não quer existir. Não quer ser criado. Quer ser invisível. O ser amado não pode viver.

domingo, 11 de setembro de 2016

Amanhã

O tempo caminha para o amanhã.
O que quero fazer com isso?
Talvez chorar sobre o passado como uma reação contrária ao plano de viver.
Talvez não pensar que apesar de tudo, tenho já tudo nesse pouco que é sempre o tudo.

Mas há algo que eu posso fazer: um pouco de esforço e uma certeza de que há uma grande importância no que posso realizar.
A pequena felicidade de me propor algo que posso fazer ou o que farei, será muito muito muito importante para o funcionamento de algumas vidas.

Senão isso, que trago em minhas mãos?
Quem pensa, quem pergunta, quem?
O do porquê das coisas serem como são?

Esse que faz e faz e nunca sabe o sentido. São interpretações tolas de quem quer adivinhar a vida dos outros. Não temos nada a fazer com o outro. O coração que não deve parar é o meu. A respiração é minha. A inconsciência é em mim que se oculta. Eu tenho apenas a mim mesma.

Diante dessa chuva de procuras, eu me acho e me dou paz para dormir hoje.

Lá fora, escuridão. Que significa ficar escuro? Que faço com a escuridão?
Agora, nada mais tenho a propor-me.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

LEMBRANÇAS...

Separo um momento desse longo tempo do dia
Curto para começar um nova vida
Longo para continuar com os mesmos pensamentos
Mas um tempo suficientemente bom para sentir.

Como está essa criança que me habita desamparada?
Onde está a mão que a protegerá?

A noite caiu. O sol brilha do outro lado.
O friozinho me embala. O ar me encobre de susto.

Meus olhos estão lá na frente. Não querem ver a senhora do tempo que avisa.
Eu me lanço no precipício do futuro. Pego minhas lembranças como prova de vida.

Alguns cacos me afetam e outros me consolam.
Minhas roupas estão sobre a cama.
Meu travesseiro segura meu sono.
Mas eu saio. Procuro e acho mais lembranças.

Anel. Cavalos. Estrelas. Lua. Planta. Vestido. Sapato. Fotografias. Porta joias. Gargantilha. Cartas.