quinta-feira, 25 de abril de 2013

O SENTIDO DA VIDA DE CADA UM: quando a obra supera o seu autor

* Eu sei que não será, nem de longe, como merece ser ou como deveria ser. Mas como dizia uma de minhas professoras do Mestrado "Eu planejei. Às vezes fica uma ... mas eu tentei".


O que hoje me leva a escrever não é recente, ao contrário, pedia umas palavras faz tempo.
Mas ainda agora falta-me algum elemento dessa história.
(A falta sempre remete a uma incompletude que maltrata o mínimo do contentamento).
Talvez esteja eu despreparada para entrever na vida alheia o que salta e que poderia ser pego para compor este texto.
No fim do dilema eu sei que, por desfecho, gostaria de encontrar o pintor Cândido Portinari para perguntar-lhe o que havia no ato de pintar seus quadros de tão visceral a ponto de continuar o seu trabalho, mesmo diante da iminência de um possível envenenamento.
Deveria, sobretudo invocar uma outra vida, que coloco lado a lado com Portinari, quando compartilha com ele a coragem de morrer, se for preciso, por seu destino escolhido.
Esta é, afinal, a história.
Estas são, no meu querer, duas histórias similares.
As vidas destas duas pessoas é que me faz perguntar sobre o sentido que cada um desenha/discursa dar à sua existência.
Eu já aprendi que as pessoas do entorno, seja um filho, um companheiro ou uma amiga querida não mudarão nenhuma das decisões que a pessoa escolheu para conferir sentido aos seus atos.
E antes de chegar ao fim desta tentativa de escrever, dei-me conta de algo que não conseguia ver há dez minutos: de repente o sentido da vida está na obra e não no seu autor.
Por isso, o subtítulo acabou de elucidar o sentido da vida de cada um.
Vida revelada na obra ou vida apesar da obra.
O que você anda escolhendo?


domingo, 21 de abril de 2013

Aventuras vitais em busca de um amor: procure os reticentes*

No dia 20 de outubro de 2009, sob o título "A última fronteira humana", uma mulher escrevia sobre a revogação definitiva de sua insistente descrença acerca da demanda coincidente que intercepta dois seres humanos, ao mesmo tempo, de sentirem-se sintonizados.  E, com isso, desistiu de parar de pensar e resolveu começar a viver por esse caminho.

Agora é outra coisa. Agora é outra vez. Agora eu tenho catorze anos. Eu vou crer.

Minha mãe tentou. Levou-me à igreja e me fez ficar, a saber do que falavam e diziam, que crer era preciso. Crer dava aconchego e sabor. Depois tudo seria mais bonito.

Minhas pernas caminharam por estradas vazias e todas me levaram ao silêncio do nada. Não retornei. Não me fiz feliz nessa caminhada.

Muito se passou...

Retorno agora a perguntar-me se desisti.
Na minha resposta sempre existirá a revogação da negativa.
Quando se busca o amor, melhor encontrá-lo nos reticentes.
Desta fronteira vital beberei e me saciarei.


Este texto é dedicado a Lincoln.

domingo, 7 de abril de 2013

VIDAS NO LIXO, EXPURGO COTIDIANO

Lá no quarto, lá no quarto está a vida que viverei daqui um pouco.
Uma vida que se fará em pensamento, porque guardada, aguarda a hora de entrar em cena.
E as outras vidas que eu poderia ter vivido hoje?
E os roteiros que desprezei titubeando pela dúvida cruel que enclausura as certezas?
Nada disso será revivido. Tudo foi, por paralisação, dispensado. Sequer foi considerado devidamente.
Desta angústia se alimentou  a vida de um dia inteiro.
Duas outras vidas me auxiliam a imaginar como tudo acontece em nós: uma, nas frases de Calligaris, em seu texto na Folha de São Paulo, sob o título "As vidas que deixamos de viver". Outra, a palestra de Clóvis de Barros Filho, sob o título "Ética: da práxis à complexidade", no site CpflCultura. 
Escreve Calligaris:
Algumas vidas não vividas são alternativas descartadas pela inércia da nossa história ou porque o desejo da gente é dividido, e escolher implica perder o que não escolhemos.
Outras são acasos que não aconteceram (é possível passar pela vida sem encontrar ninguém ou encontrando muitos, mas todos na hora errada).
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Essas vidas não vividas podem nos enriquecer ou nos empobrecer. Elas nos enriquecem quando integram nossa história como tramas alternativas de um romance, incluídas no rodapé da edição crítica.
Melhor ainda, como tramas alternativas às quais o autor renunciou, mas que ele se esqueceu de apagar inteiramente: o herói não vai mais para África no capítulo dois, mas eis que, no capítulo sete, aparece um africano que ele conheceu antes, mas que não se entende de onde vem, a não ser que a gente leia aquela parte do dois que foi abandonada.

Clóvis de Barros Filho, para quem quer fazer ouvidos moucos, grita um pouco para que acordemos, nos alegremos ou desesperemos sobre a ideia mesmo de que viver é escolher, enquanto outras vidas são jogadas no lixo, descartadas, desprezadas, marginalizadas.
E como disse um  poeta catarinense, do qual não me recordo o nome, "viver é uma sucessão de equívocos".
Bem, se assim agora concordamos, é pelo menos essa boa certeza que nos socorre.