Lá no quarto, lá no quarto está a vida que viverei daqui um pouco.
Uma vida que se fará em pensamento, porque guardada, aguarda a hora de entrar em cena.
E as outras vidas que eu poderia ter vivido hoje?
E os roteiros que desprezei titubeando pela dúvida cruel que enclausura as certezas?
Nada disso será revivido. Tudo foi, por paralisação, dispensado. Sequer foi considerado devidamente.
Desta angústia se alimentou a vida de um dia inteiro.
Duas outras vidas me auxiliam a imaginar como tudo acontece em nós: uma, nas frases de Calligaris, em seu texto na Folha de São Paulo, sob o título "As vidas que deixamos de viver". Outra, a palestra de Clóvis de Barros Filho, sob o título "Ética: da práxis à complexidade", no site CpflCultura.
Escreve Calligaris:
Algumas vidas não vividas são alternativas descartadas pela inércia da nossa história ou porque o desejo da gente é dividido, e escolher implica perder o que não escolhemos.
Outras são acasos que não aconteceram (é possível passar pela vida sem encontrar ninguém ou encontrando muitos, mas todos na hora errada).
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Essas vidas não vividas podem nos enriquecer ou nos empobrecer. Elas nos enriquecem quando integram nossa história como tramas alternativas de um romance, incluídas no rodapé da edição crítica.
Melhor ainda, como tramas alternativas às quais o autor renunciou, mas que ele se esqueceu de apagar inteiramente: o herói não vai mais para África no capítulo dois, mas eis que, no capítulo sete, aparece um africano que ele conheceu antes, mas que não se entende de onde vem, a não ser que a gente leia aquela parte do dois que foi abandonada.
Clóvis de Barros Filho, para quem quer fazer ouvidos moucos, grita um pouco para que acordemos, nos alegremos ou desesperemos sobre a ideia mesmo de que viver é escolher, enquanto outras vidas são jogadas no lixo, descartadas, desprezadas, marginalizadas.
E como disse um poeta catarinense, do qual não me recordo o nome, "viver é uma sucessão de equívocos".
Bem, se assim agora concordamos, é pelo menos essa boa certeza que nos socorre.
domingo, 7 de abril de 2013
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