Às vezes tenho vergonha do que escrevo.
Recentemente deduzi que meu processo de letramento foi um dos piores que se pode impingir a uma criança.
Aprendi a ler sem que os adultos me frisassem a função social da escrita.
A única coisa que sabíamos sobre aprender a ler é que quem não o conseguisse seria alvo de muita depreciação. É... era isso que nos movia.
Fico imaginando como me comportaria se meus professores tivessem me ensinado apreciar poesia, romances, crônicas, contos, notícias de jornal, cartas de amor, telegramas, bilhetes, discursos políticos, relatórios, projetos, textos científicos, tantos gêneros da linguagem escrita. Acho que eles também estavam despreparados, coitados. Somos todos frutos de uma educação empobrecida dos últimos setenta anos na história do Brasil.
Essa marca me ficou e muitas vezes, quando quero me desfazer em palavras , elas não se apresentam, bem como quando criança, que ao invés de escrever sobre sentimentos, sensações, emoções, escrevíamos letras e sílabas vazias de sentido.
