Há exatamente dois meses você largou tudo e se foi.
Largou o cigarro, meu deus! Naquela semana você não fumou, eu nem acredito!
Deve ter sido seu maior martírio. Nunca me ocorreu perguntar algo: de quem você gostava mais, de seu cachorrinho ou do cigarro?

Falar de você é tão fácil e esquisito. As coisas mais simples nem existiam para você. Sequer um dia pensamos em conversar coisas assim.
No fim da linha o assunto fazia tempo, tinha se esgotado.
Assistia, dissidente, você mergulhar em si mesma, sem contar seus segredos e seus medos mais profundos.
Quantos dias faltavam?
Quantas noites atormentadas ainda viriam?
Tanto fazia. A vida sempre morou em você sem a devida coragem.
Teve que aceitar derrotada a chuva fria e o sol escaldante.
Quando eu era criança já achava você divertida. Depois você ficou menos consciente ainda.
Eu me sentia sua terapeuta, mas você nem desconfiava minha análise. Era amadoríssima, é claro.
Talvez por sua causa eu tenha aprendido a lutar, tenha aprendido a enfrentar, tenha aprendido a
sobreviver. Selva, selva e selva de pedra, de pedra, de pedra era a sua vida.
De todas as vidas das mulheres, a sua eu não consegui compreender regada a tanta covardia.
Por que você não chorou mais, por que você não os assustou?
Apenas morrer fez você largar o seu grande companheiro: o sabor doce do branco longo.
Esta foi a verdadeira tristeza que tomou a sua vida, a meu ver.