domingo, 29 de dezembro de 2013

Verão e a suspensão da disposição para viver

Basta ouvir a rolinha tocando sua pequena flauta e eu me transporto para o meu verão infantil.
Já não suporto o calor... seus efeitos sobre meu corpo e o pensar preguiçoso.
Só mesmo ouvindo a rolinha para saber que esse mundo me é familiar.
Tudo, absolutamente tudo está no passado.
A única coisa que faço é recordar.
A rolinha escondida em um telhado qualquer me conduz. Seu canto se destaca entre os ruídos desta tarde quente e sufocante. Ela me faz suportar sempre de novo aquilo que me paralisa.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Quando os pássaros cantam ...

Quando Contardo Calligaris escreveu na Folha de São Paulo que a alegria é preferível à felicidade não sabia ele que identificaria em mim uma sensação compatível.
Fiquei pensando na alegria que é estar simplesmente sentada na cama, recostada em travesseiros, inerte a imaginar como é plena a minha satisfação de fazer exatamente isso e não outra coisa quando é disso que agora preciso.

Fiquei pensando em como essa minha cama é íntima, refúgio perfeito que necessito para ouvir alguns pássaros cantantes mais do que roncos de motores de carro ou vozerios de pessoas apressadas a correr não sei para onde, querendo encontrar a mesma alegria que eu.

Fiquei pensando que eu posso pensar sobre meu pensamento ser o que é e entender perfeitamente, pelas palavras de Calligaris, que ...
a riqueza da experiência compensa seu caráter eventualmente penoso.
Essa alegria, de longe preferível à felicidade, é reconhecível sobretudo no exercício da memória, quando olhamos para trás e narramos nossa vida para quem quiser ouvir ou para si mesmo. [...]Para reencantar o mundo, é suficiente descobrir que o verdadeiro encanto da vida é a vida mesmo.


Faz tempo que percebo que escrevo narrando minhas sensações em torno de minha própria vida. Mas tenho me constrangido menos com a sensação de ser um ato narcísico. Estou apenas a narrar minha vida que, se ampla ou resumida, conta uma perspectiva particular. As queixas assim podem tornar-se narrativas que contemplam o vivido ao invés de lamentos pelo que estou deixando de viver.  Como me inspira o próprio Calligaris em outro de seus textos, viajar só é bom se um dia abandonei onde nasci e agora já tanto faz onde estou. Melhor ainda se reencontrar o que dantes foi meu, em outra vida, outro tempo, outro lugar e somar com o presente.  

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Se este momento fugir...o universo não me presenteará com seu retorno.  E assim se fez.
Quando você vem, é como se estivesse do meu lado...
Faço mil afagos e não penso que isso lhe incomoda.
Seguro-lhe fimemente e procuro fechar meus olhos para experimentar longamente sua respiração.
Mas você sempre vai embora, mudo.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A morte comemora a sua chegada há dois meses

Há exatamente dois meses você largou tudo e se foi.
Largou o cigarro, meu deus! Naquela semana você não fumou, eu nem acredito!
Deve ter sido seu maior martírio. Nunca me ocorreu perguntar algo: de quem você gostava mais, de seu cachorrinho ou do cigarro?
Falar de você é tão fácil e esquisito. As coisas mais simples nem existiam para você. Sequer um dia pensamos em conversar coisas assim.
No fim da linha o assunto fazia tempo, tinha se esgotado.
Assistia, dissidente, você mergulhar em si mesma, sem contar seus segredos e seus medos mais profundos.
Quantos dias faltavam?
Quantas noites atormentadas ainda viriam?
Tanto fazia. A vida sempre morou em você sem a devida coragem.
Teve que aceitar derrotada a chuva fria e o sol escaldante.
Quando eu era criança já achava você divertida. Depois você ficou menos consciente ainda.
Eu me sentia sua terapeuta, mas você nem desconfiava minha análise. Era amadoríssima, é claro.
Talvez por sua causa eu tenha aprendido a lutar, tenha aprendido a enfrentar, tenha aprendido a
sobreviver. Selva, selva e selva de pedra, de pedra, de pedra era a sua vida.
De todas as vidas das mulheres, a sua eu não consegui compreender regada a tanta covardia.
Por que você não chorou mais, por que você não os assustou?
Apenas morrer fez você largar o seu grande companheiro: o sabor doce do branco longo.
Esta foi a verdadeira tristeza que tomou a sua vida, a meu ver.