Quando Contardo Calligaris escreveu na Folha de São Paulo que a alegria é preferível à felicidade não sabia ele que identificaria em mim uma sensação compatível.
Fiquei pensando na alegria que é estar simplesmente sentada na cama, recostada em travesseiros, inerte a imaginar como é plena a minha satisfação de fazer exatamente isso e não outra coisa quando é disso que agora preciso.
Fiquei pensando em como essa minha cama é íntima, refúgio perfeito que necessito para ouvir alguns pássaros cantantes mais do que roncos de motores de carro ou vozerios de pessoas apressadas a correr não sei para onde, querendo encontrar a mesma alegria que eu.
Fiquei pensando que eu posso pensar sobre meu pensamento ser o que é e entender perfeitamente, pelas palavras de Calligaris, que ...
a riqueza da experiência compensa seu caráter eventualmente penoso.
Essa alegria, de longe preferível à felicidade, é reconhecível sobretudo no exercício da memória, quando olhamos para trás e narramos nossa vida para quem quiser ouvir ou para si mesmo. [...]Para reencantar o mundo, é suficiente descobrir que o verdadeiro encanto da vida é a vida mesmo.
Essa alegria, de longe preferível à felicidade, é reconhecível sobretudo no exercício da memória, quando olhamos para trás e narramos nossa vida para quem quiser ouvir ou para si mesmo. [...]Para reencantar o mundo, é suficiente descobrir que o verdadeiro encanto da vida é a vida mesmo.
Faz tempo que percebo que escrevo narrando minhas sensações em torno de minha própria vida. Mas tenho me constrangido menos com a sensação de ser um ato narcísico. Estou apenas a narrar minha vida que, se ampla ou resumida, conta uma perspectiva particular. As queixas assim podem tornar-se narrativas que contemplam o vivido ao invés de lamentos pelo que estou deixando de viver. Como me inspira o próprio Calligaris em outro de seus textos, viajar só é bom se um dia abandonei onde nasci e agora já tanto faz onde estou. Melhor ainda se reencontrar o que dantes foi meu, em outra vida, outro tempo, outro lugar e somar com o presente.

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