segunda-feira, 31 de dezembro de 2012


VOU SONHAR COM VOCÊ


Quando me encontro de férias, sou capaz de reduzir drasticamente meus movimentos corporais, numa resposta àqueles momentos, durante o ano, em que o cansaço ganhava a batalha com a boa vontade. Estão assim os meus últimos dias: em reflexão e flutuação, sem peso, sem excessos, sem quereres.
A abreviação margeia a inércia e as duas se cumprimentam enquanto podem.
É por isso que algumas leituras me lançam ideias que, perdoem-me os que detestam pessoas como eu, que só sabem sentir o que acontece com elas mesmas, tomam rumos tão exatos e sensatos, sentidos e engasgados até quase me sufocarem.
Não tenho ainda uma conclusão formulada a respeito, mas estou aqui a pensar se o que Erich Fromm (1976) escreveu na página 106 tem realmente sentido. Porque se acaso tiver, mais da metade dos revéses sofridos poderiam ter sido evitados se tivesse prestado atenção nas sensações que a presença de certas pessoas me produzem. Fromm escreveu:

Sabemos quando encontramos uma pessoa perigosa, sabemos quando estamos diante de quem merece confiança; sabemos quando nos mentem, quando nos exploram, quando nos fazem de tolos, quando somos transformados em mercadorias. [...] nós reprimimos o nosso conhecimento imediatamente, porque se ele fosse consciente dificultaria demasiadamente a vida [...].
 
Se quisermos nos levar a sério, começaremos, então, a prestar atenção ao nossos sonhos. (Quando estou de férias, vou para cama como quem vai para uma segunda vida. Meus sonhos fluem despreocupados, mostrando conteúdos que logo esqueço. Camila, minha filha, avisa que quanto mais reprimido o que acontece no sonho, mais importância ele tem). Bem, para piorar a situação dos nossos sonhos, Fromm diz que neles se revela uma profunda intuição da essência da outra pessoa e de nós mesmos, dificilmente percebidos quando andamos acordados por aí. "Na verdade, grande parte de nossa energia é empregada para ocultar de nós mesmos o que sabemos, e o grau desse conhecimento reprimido dificilmente poderá ser superestimado."
 
Espero, pelo menos de mim, alguma coerência. Que os outros também percebam a que vim, na pior das circunstâncias, se eu lhes aparecer em algum sonho. Se assim acontecer, já estarei satisfeita, pelo menos em parte.
 
 
 

domingo, 30 de dezembro de 2012

DESEJOS PARA O ANO NOVO

Às vezes paramos, nem sempre sabedores dos motivos, de fazer aquilo que mais nos identifica conosco mesmos.
Este ano, que termina, foi assim. Nada de ideias, nada de determinação por escrever metodicamente.
Li algo no livro de Irvin D. Yalom que me deixou mais desgostosa comigo mesma do que já me encontrava antes de ler. Diz o autor em algum lugar  de "Mamãe e o sentido da vida" que, apesar de todas as suas outras densas ocupações, escrever era a coisa que ele mais perseguia.
Nem precisava dizer. Ainda que seu estilo americano, detalhado e inventivo me cause certo enfado, por pormenorizar demasiado uma situação, confesso que sua obra transparece exatamente isso. A despeito disso, é verdade, escrever exige a superação da preguiça.
Compramos um livro todo. Não podemos escolher as partes que, por ventura, interessar-nos-ão. Por isso, a exaustão do detalhamento faz parte do ofício, se queremos ser levados a sério.
Falando em levar a sério, preciso fazer isso por mim. Devo me encarar com mais responsabilidade e dedicação. Devo ser mais perseverante em me dar valor.  Devo me olhar com credibilidade e solidariedade. Devo me fazer mais perguntas. Dar-me caminhos novos para escrever.
Acordo e devo me dizer "observe". Traduza o mundo caótico e instigante em textos, em crônicas. Escreva, oh mulher negligente de si! 
Simples... são esses meus desejos para 2013.
Que venha o ano novo e me diga quando começou.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

O QUE EU QUERO?

Todas as mulheres querem escolher.
Eu sou uma mulher.
Portanto... quero escolher.
Mas eu não sei o quê!

Uma história que envolve o Rei Arthur pode ser minha metafórica caricatura.
Estou feliz por ter uma história. Na verdade, uma escolha.

E enquanto a vida se ocupa de me ocupar, eu penso ...
Tendo a discordar da resposta que me ocorre.
A situação se mostra adversa.
Onde parece que aflora o sonho
Aflora a triste dúvida.

Detesto a ideia
de ter de contar a história.
Queria que ela fosse de conhecimento
Que as bruxas viessem em meu socorro
e reconhecessem que está difícil.

Sempre aquela ideia:
Cuidar da própria vida.
Seguir, mesmo que solitária.
Escolhendo-me, antes de tudo.
Mas e os momentos em que me sentir perdida?

O que me escolho?

De dia, príncipe exuberante? De noite, inútil figura?
De noite, lancinante abraço? De dia, fugidia vida?


domingo, 4 de novembro de 2012

Lá fora tem tanta coisa...
Tem o vento que, na sua invisibilidade, consegue balançar a cortina
Tem o latido de cão de minha longínqua memória
Tem a criança gritando histérica sua alegria ao domingo
Tem o papagaio a enganar a voz humana
Tem o ruído do motor dos carros apressados
Tem o som familiar da casa do vizinho
Tem o ganido estrangulado do cachorrinho preso.
Aqui... dentro de mim... só tem o medo
de ter de ouvir um mundo que pulsa lá fora
por entre o emaranhado de minha estranha
sensação de apartamento.

terça-feira, 15 de maio de 2012

DUAS AVALIAÇÕES, UMA BICICLETA
Você vai vivendo... Somam-se os dias e o tempo passou... Não passou em vão... Você carrega muitas experiências e tem certeza de que hoje você não é a mesma de ontem. Alguma inteligência houve tempo de construir. Como podem então dois eventos se unirem em torno de uma bicicleta? Evento um: Há dois anos aconteceu uma avaliação de desempenho sofrível. Auto-estima em suspensão. Dúvida. Subestimação. Fraqueza. Falta de capacidade. Inadequação. Quase reprovação. Evento dois: Convite para ministrar uma palestra. Um erro de coerência das pessoas de dois anos atrás. As mesmas. Evento três: manhã, 14 de maio, trabalho. Refletir sobre avaliação. Como? A pergunta. Como foi quando andei de bicicleta a primeira vez? Foi neste momento que me perdi num domingo, à tarde. Dia ensolarado. A rua em frente à casa e à escola eram o cenário. Pai e mãe no culto. Bicicleta. Que cor? De quem era? Alguém segurou. Eu fui. Seis anos. Pela rua alcancei os recém saídos da igreja sobre a bicicleta. Anunciei. Gritei? Não, eu não gritava. Eu podia estourar de felicidade. Era forte. Sabia a coisa. Competente andadora de bicicleta. Segura. Sem vacilar. Sem tombos. Nunca houve tombos. Para onde foram? A pior pergunta que tive que me fazer esta semana é por que fui avaliada tão injustamente "má condutora de bicicleta" se agora eu sou boa palestrante? Só lágrimas podiam denunciar meu sentimento. Só risos vão continuar se depreendendo desse episódio.

terça-feira, 1 de maio de 2012

Noite sem escuridão Essa noite foi diferente Diferente em sensações Só uma coisa não muda Essa vontade de dizer Essa vontade de escrever Não dizer a ninguém Não olhar nos olhos e me perder Não ouvir a respiração E o suspiro da dor Escrever é um ato de minhas vísceras Como sempre ter sede de novo E sempre recorrer a mesma fonte Procurando as palavras para me embebedar Passa o tempo e tudo muda Embranquece o cabelo A pele arrefece sua elasticidade Cai a neve, vem o sol A vontade de escrever sempre é a mesma Tantas noites Tantas sensações Nunca puderam ser caladas A fonte jorra toda vez Que a tristeza chora Eu não quero mudar Minha escrita é fruto de meus dedos Que agem assim no papel Apesar das curvas deste rio Seus obstáculos me param Essa noite Ao entrar no quarto Diante da angústia da hora Escrevo e adormeço Amanhã escreverei

terça-feira, 24 de abril de 2012

Dor teria que doer
Estou diante dos minutos contados. Tenho apenas trinta minutos para me lamentar. O lamento inclui um fantasma, desses que não assumem rosto algum. É constrangedor não haver dor real. Apenas uma insuportável dor de nada. Uma dor sobre nada. Uma dor que ninguém quer. Que não pode ser dita. Que não comove ninguém. Dessas que mascaram a beleza de tudo que nos cerca. Tenho vergonha dessa dor. Por isso escrevo. Não consigo compartilhá-la sem sentir um tremendo egoísmo. Ela parece tão sem sentido que mal consigo achar forças para sobre ela escrever. Essa dor é tão fraca que só dói de vez em quando intensamente. Até me flagro feliz. Mas, é só pensar que estou feliz para a dor voltar. Essa dor é estranha! Essa dor é uma das "coisinhas". *Quero dedicar este texto, pequeno em número de palavras; grande em significação, ao "touro" sentado sobre nossas certezas.