
Agora, quando duvido do sentido da vida, sou confrontada diretamente por duas pessoas, as quais não conseguem ignorar que foi a elas que eu dei a vida e que, de alguma forma, não se eximem de me exigir uma justificativa.
- Ora, onde está a verdade? Com quem está a melhor razão? No que devemos acreditar?
Todos os dias, insistentemente, recebo ondas de dúvida e de certeza sobre o que é viver.
As certezas me são dadas:
- quando as palavras saem da minha boca e se harmonizam em pensamentos, que, concatenados, formulam perguntas racionalmente elaboradas, submetendo a vida no mundo ao confronto das suas razões;
- quando eu sinto que, apesar das circunstâncias exigirem um certo desânimo, eu busco um humor que me faz estranhamente alegre;
- quando aceito, de bom grado, que meu trabalho como docente esteja sendo o melhor que posso realizar, apesar da incerteza de estar a contento;
- quando me vejo admirando os seres humanos que conseguiram reunir, num relacionamento, por exemplo, tudo aquilo que pensei que também me seria permitido, e nem por isso estou amargurada a ponto de me tornar autodestrutiva;
- quando me experimento sonhando e nesses sonhos assumindo os papéis que gostaria que a realidade me proporcionasse.
A vida fica sem sentido, ainda que temporariamente ou ciclicamente:
- quando esqueço que, para um bom observador, em se tratando de seres humanos, a lógica é reduzida a uma visita esporádica;
- quando me dou conta que a felicidade não é um sentimento de que necessito quando escrevo;
- quando o sábado à tarde já me apavora e o domingo... nem se fala;
- quando volto a me encolher na posição fetal e o ar some;
- quando meus movimentos paralisam a vontade de estar perto do mundo que vive inconsciente de si.
Agora, depois de escrever palavras que deveriam desenhar minha imagem a partir do interior, estou pensando se valeu a pena o trauma diário da dúvida. Devo recusar duvidar?


