terça-feira, 31 de março de 2015

Sem palavras

Palavras...

Como as palavras produzem nossos corpos cansados de mais de dez mil anos!
Palavras...
Como elas explicam a que nos submetemos ao longo da vida!
Palavras...
Como elas preenchem o vazio que nos acompanha!

Ouço palavras ao longe.
Enquanto elas são ditas, não são mastigadas.
Elas voam pelo ar em direção a alguém que as escuta.
Palavras foram feitas para dizerem algo sobre nós.


As palavras ecoam misturadas a risos e respiração.
Uma sonoridade que nos é familiar vem grudado nas palavras.
Nós queremos ouvir sempre as mesmas palavras.
Assustamo-nos quando as palavras vem com rancor e empoderamento.

"Não sou boa com as palavras", tenho ouvido.
"Fala você, que dorme e anda com as palavras".

Se um dia faltarem as palavras, terei de olhar com mais expressão.
A minha expressão sempre é vista do lado de fora, onde os outros a veem.
Porque digo certas palavras só se pode ver por dentro e lá, só eu vejo.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O mundo à minha maneira

Ando na rua...
Olho para o chão querendo encontrar um caminho.
Qualquer caminho que preencha o vazio que deixou esse dia,
na infinita sensação de inacabamento e de incerteza de quem sou.

Continuo a caminhar...
Desvio para um outro caminho e sigo devagar não querendo chegar.
Sem saber o que pensar, sinto cada passo a me levar ao vazio
que esse dia teve o talento de imprimir.

Os pensamentos não explicam como essa confusão ficou aqui a revolver-se.
Passam-se as horas, o pesadelo perde efeito.
Afrouxam-se as amarras e uma brisa começa a soprar.
Leva a nuvem para outro lugar e aqui começa a chover devagar.

Uma força gigantesca sufoca minha liberdade...
Ouço vozes a me repreender: - você não deve falar!
Encolho-me quieta e não sei chorar.
Reprimo essa emoção para poder ouvir o que o mundo tem a me dizer.

Durmo e quem sabe a dor se dissipará: um grito e um sonho, à noite.
Mas depois tudo está lá, diferente e igual dantes.
Vou encenar dúvidas e perguntas
Para continuar a levar a vida em mim.