domingo, 8 de novembro de 2015

Todas as cores

Cheio...
De nadas...
De grandes vazios abarrotados ...
Fossos profundos
De água salgada.

Contas de todas as cores
Vida e amores.

De dia, de noite
Quando o segredo se esconde.
Morre um desejo, todos se mostram
Mas nenhum é o eleito.

Tudo passa ao largo
E a vida que pulsa
Amansa a dor
Que parece nunca mais voltar.

segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Vergonha de dizer



A única coisa que me resta escrever é sobre meu imenso talento em sentir a dor de viver.




Rosto pálido.
A roupa está sem cor.
As flores estão tão lavadas da chuva.
Mãos fracas e pés gelados.
Silêncio e mais silêncio.
Nenhuma ideia.
Desejos perdidos.
O tempo passa pois o relógio de nada sabe.
Paredes lisas, as fotos caíram.
Dor de viver essa vida.
Sem saúde, sem doença.
O sol nem quer aquecer.

Vou dormir. Quando acordar, tudo pode ser outro.

domingo, 31 de maio de 2015

Pensamento assassino

Coisas pequenas me afetam...
As grandes me amedrontam.
Detalhes me são sussurrados nas frestas do cotidiano repetitivo.
Acho que não pode haver sentido na normalidade.

Mil pensamentos... não, uma dezena mil vezes.
Ida e volta, lá está ele de novo e sempre de novo e se renovando, virando uma avalanche.
Arrasa-me, desconstrói-me, perfura, desequilibra esse pensamento.
Na verdade, há só um pensamento predominante de cada vez.

Poderia assassinar esse pensamento, estrangulá-lo, livrar-me dele, extirpá-lo, torná-lo invisível.
O pensamento ganha corpo cada vez mais, corrói minha mais pura intenção,
dilacera minhas esperanças, luta corporalmente com meu corpo frágil e sem vontade.

Meu pensamento é mau.
Asfixia as boas coisas da vida. Que vida? A invenção? A criação? A suspensão da consciência?
Meu pensamento insiste em me fazer desistir de pensar nele, Mas o mau pensamento vence.
Adentra a madrugada, tira o sono, perturba o corpo, atrapalha a paz.
Agarro-me ao travesseiro e lá também meu pensamento está escondido.

Estou escrevendo sobre meu mau pensamento para ver se o venço.
Para ver se o engano, diminuo sua potência, rio-me dele, reduzo-o a quase nada.
Parece que agora ele perdeu um pouco a força pois estou a escrever sobre ele.
De repente, meu pensamento se vê observado e ele se esconde.

Na verdade escrever sobre meu pensamento tira a força destruidora dele.
A que me faz ter pena de mim mesma.
A que me humilha.
A que me reduz a refém.
A que me aniquila.

Eu quero um novo pensamento para ir dormir,
Um jardim florido mesclado de cores vivas,
A vida que busco na leveza do sono, sem despertar antes da hora,
Eu quero dormir sem pensar meu pensamento mau.

Mil vezes meu pensamento eu mato.
Mas ele é tão forte e profundo.

terça-feira, 21 de abril de 2015

Impotência





Que dia é esse ? pergunta meu pensamento.
Que sentir eu experimento? pergunta meu corpo.
Que sensação é essa? interroga minha vida.

Estou presa dentro de meu corpo.
Minhas asas podadas não conseguem subir na montanha.
Meu rosto não molha com lágrimas.
Parei de sentir.
Meu corpo exibe seu colapso.
O grito não sai.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Na companhia das palavras

Ah, as palavras.... essas indomáveis coisas que seres humanos pronunciam
Que não se deixam organizar quando recolhidas do chão
Que desatinam a falar sem pensar e descobrem-se incapazes
De amenizar ou incitar se a vida não lhes parar.

A culpa é da palavra.
Palavra rude, subversiva, dilacerante.
Mas uma palavra sempre está inocente
Enquanto a culpa ainda não se pronunciou.

A palavra somos nós todos
Quando escapa da intimidade.
Dá nome a homens e mulheres
Mistura-se ao sangue e à carne.

Palavra é bênção
Para um modo de fazer as coisas.
Quando todo mundo olha
Mas o que se vê são palavras em forma de gestos.

A palavra é luz no mundo de quem desconhece.
Imprime esperança no gesto de quem ouve.
Serena lábios e sorrisos
Depois se esconde como se nunca tivesse sido dita.

A Palavra – um desafio
Ronda os quartos da casa
Esconde-se e reaparece
Quando a música toca e alguém senta a escrevê-la.

Na palavra me invento, invento os outros.
Invento minha vida, meus problemas, minha saída.
Na palavra me fiz humana, ainda que demasiado diversa.
Dói-me agora não conhecer tudo.

Na palavra: o medo, a vergonha, a ideologia.
Essa(s) palavra(s) persegue(m) as existências
De sonhadores que se distanciaram
Da primeira palavra que foi negação.

A palavra que não direi: adeus.
A palavra que não conjugarei: hipócrita.
A palavra que não pensarei: prisão.
A palavra que não sentirei: pobre.

A palavra mais bela é aquela que não soa como palavra.
A palavra mais saudosa é aquela que vem na lágrima.
A palavra mais sonhadora é aquela que projeta um amor.
A palavra mais concreta é aquela que se deixa abstrair.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Ventania de palavras

Palavras são castelos que você constrói.
Às vezes parece que seu arsenal de palavras se limitou deveras.
E se limitou mesmo! A boca não pronuncia mais nada. A estagnação acontece.

Depois, entra uma nova estação e tudo pode mudar.
O bom desse jogo é quem sabe contemplar a ida e a vinda das palavras.
Ora para levantar, ora para derrubar.

Pior são os dias em que as palavras não querem nada.
Não são de limão, não são de laranja.
São amorfas criaturas que não te tiram da cama.

Um dia, quando as palavras nos abandonam
O desespero do não saber o que querem
Agimos mais do que falamos
Porque palavras vêm quando não as chamamos.

Pensar em aprisionar as palavras é trovão se formando
Elas caem como garoa: finas, silenciosas, embalam.
Estão na memória dos amantes,
Estão no soprar dos ventos,
Estão no farfalhar das palmeiras,
Estão escondidas nas curvas da vida silenciosa.

Quer uma palavra?

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Como eu

Tenho me conhecido pelos outros.
Pelo que os outros acumularam a meu respeito.
Faço parte de uma massa que intensificou-se nas certezas, tão frágeis e quebradiças, no fim.
Eu não me conheço e me sou tão familiar.
Cada gesto e pensamento que sai de mim eu nem reconheço.
Os outros me descrevem e eu me surpreendo.
Vou levantando desculpas e fugindo da padronização.
Mas eu sou assim, inegável constatação.

Tenho pensado em como seria nascer de novo para mim.
Que eu faria diferente?
Não há nenhuma necessidade de morrer e reencarnar.
Às vezes, tudo acontece aqui mesmo.
Acho-me agraciada pela vida: duas vezes

terça-feira, 31 de março de 2015

Sem palavras

Palavras...

Como as palavras produzem nossos corpos cansados de mais de dez mil anos!
Palavras...
Como elas explicam a que nos submetemos ao longo da vida!
Palavras...
Como elas preenchem o vazio que nos acompanha!

Ouço palavras ao longe.
Enquanto elas são ditas, não são mastigadas.
Elas voam pelo ar em direção a alguém que as escuta.
Palavras foram feitas para dizerem algo sobre nós.


As palavras ecoam misturadas a risos e respiração.
Uma sonoridade que nos é familiar vem grudado nas palavras.
Nós queremos ouvir sempre as mesmas palavras.
Assustamo-nos quando as palavras vem com rancor e empoderamento.

"Não sou boa com as palavras", tenho ouvido.
"Fala você, que dorme e anda com as palavras".

Se um dia faltarem as palavras, terei de olhar com mais expressão.
A minha expressão sempre é vista do lado de fora, onde os outros a veem.
Porque digo certas palavras só se pode ver por dentro e lá, só eu vejo.

quinta-feira, 26 de março de 2015

O mundo à minha maneira

Ando na rua...
Olho para o chão querendo encontrar um caminho.
Qualquer caminho que preencha o vazio que deixou esse dia,
na infinita sensação de inacabamento e de incerteza de quem sou.

Continuo a caminhar...
Desvio para um outro caminho e sigo devagar não querendo chegar.
Sem saber o que pensar, sinto cada passo a me levar ao vazio
que esse dia teve o talento de imprimir.

Os pensamentos não explicam como essa confusão ficou aqui a revolver-se.
Passam-se as horas, o pesadelo perde efeito.
Afrouxam-se as amarras e uma brisa começa a soprar.
Leva a nuvem para outro lugar e aqui começa a chover devagar.

Uma força gigantesca sufoca minha liberdade...
Ouço vozes a me repreender: - você não deve falar!
Encolho-me quieta e não sei chorar.
Reprimo essa emoção para poder ouvir o que o mundo tem a me dizer.

Durmo e quem sabe a dor se dissipará: um grito e um sonho, à noite.
Mas depois tudo está lá, diferente e igual dantes.
Vou encenar dúvidas e perguntas
Para continuar a levar a vida em mim.

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

A difícil tarefa de escrever

Desacredito mais do que qualquer outra coisa ...
Ruim! Penoso! Desanimador! Cansativo! Inútil! Assim sinto a coisa mais importante sobre mim mesma. Chegará o dia em que, talvez, não possa mais andar, nem sair de casa, descer escadas, correr, tomar banho sozinha, comer sem me lambuzar e, então, se me restar escrever será a maior felicidade. 

Eu não posso ainda ver nessa perspectiva a minha vida cerceada, mas já sei que se escrever for-me permitido, tudo terá se cumprido conforme sei desde os meus dez anos.

Então... por que não escrevo todo dia? Por que não deixo tudo o mais de lado e escrevo incessantemente? Não consigo responder ainda. Tenho um pouco de medo do presente embrulhado nesse papel bonito. Economizo as emoções e transfiro para o amanhã o desfrute desse prazer.

A banalização não combina com o ineditismo. A poesia deve ser preservada a qualquer custo. Sou a criança que quer ouvir a história de novo mas tem de adiar o enlevo que ela lhe oferece. Hoje só quero dormir um pouco. O papel me entende.


domingo, 1 de fevereiro de 2015

Incontrolável...

Com seu senso fugidio, a brisa entra por esta janela
e me alivia o rosto do calor do verão.
Incontrolavelmente ela me remete a um lugar estranhamente familiar.
Não sei o que é essa sensação. Sou convidada a parar para imaginar tantas coisas!

Minha vida é um percurso que se desenrola como uma onda tímida, temerosa.
Percebo perdas e perdas. Percebo perspectivas e outras fases.
Uma descontinuidade tem se mostrado nas nuances que temo encarar.
Nada tem se apresentado em meu entorno como um destino.

As pessoas vão me deixando e indo para outras dimensões. O que elas estão a fazer lá?
Pergunto, nestas horas angustiantes em que vivo distraidamente um plano, o que tenho me reservado?

Vários lugares vêm com a brisa. Rostos, frases, sentimentos... o tempo transcorrido.
Uma certeza: não há muito tempo. Não haverá tempo para muitas descobertas, ainda que certos processos não adianta apressar. Fica tanta coisa por dizer, por fazer, por terminar.

Abrevio e me pego distraída facilmente. Mas não tanto quanto quase todo mundo.

quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Experimentar e desistir, se for necessário: pelo pensar!

Clarice Lispector quando se dedicou a escrever sobre a realidade foi feliz ao não encerrá-la em uma só definição. Aliás, por definição, ela afirmou que escreveria sobre a realidade fosse ela qual fosse, ou, talvez, fosse ela o reflexo de sua própria subjetividade. 

A realidade é este pequeno punhado de terra que recolho do chão e que me foi revelado pela experiência. Meu punhado de terra escoa com a água da chuva e todo dia tenho de recolhê-lo de novo porque não consigo conter a minha própria transformação. Se acredito ter apanhado todos os punhados que podia, a realidade vem e me diz que ainda não acabei de ver tudo, por isso, "[...] o que nos mostra a experiência é a insuficiência, ou a insatisfação do nosso pensar anterior; necessitamos voltar a pensar porque já não nos vale o anterior frente ao que vivemos, ou do que vemos que passa, que nos passa. Justo, o que faz a experiência ser tal, é isto, que temos de voltar a pensar".*

Deixar se convencer da incansável busca pela experiência fundante ou derradeira é, porém, uma parte da trajetória de quem aprende experimentando. Essa lição, que também é incorporada numa das vezes em que o punhado de terra é recolhido, corre o mesmo risco que encerrar a realidade em uma única versão. Quer dizer, um grandessíssimo dispêndio de vida e energia. Que a realidade valha à pena pelo menos! Já sabemos: às vezes deve ser banida pelo esquecimento,  

Não quero muito. Quero apenas forças para não recolocar meu aprender à frente de qualquer outra sensação, senão à capacidade de me "assombrar", como quer Merleau Ponty, coisa tão difícil quanto construir sentido para o viver. 




* De Contreras e Pérez, 2010, p. 21.

domingo, 11 de janeiro de 2015

Tempo e Tédio: uma experiência humanizante



A experiência subjetiva dos seres humanos com o tempo tem possibilitado viver a vida de inúmeras maneiras. Nada mais esclarecedor é o que Svendsen afirma:



"A consciência favorece a reflexão sobre a vida que levamos. E isso leva tempo. Atualmente, quando a eficiência está na ordem do dia, preferimos que tudo se mova num ritmo acelerado, mas quando refletimos sobre o que nos afeta profundamente, precisamos de tempo. [...] faz parte da experiência de tédio levar tempo. Em vez de nos conceder esse tempo, escolhemos bani-lo. Alguém fica feliz graças a todas as diversões - férias, televisão, bebida, drogas, promiscuidade? Dificilmente, mas a maioria de nós fica, pelo menos, um pouco menos infeliz durante algum tempo. Mesmo assim, perguntamos a nós mesmos: que valor têm esses prazeres, exceto como uma maneira de passar o tempo? Podemos nos imaginar sendo capazes de manter o centro do prazer no cérebro constantemente estimulado, de tal modo que a vida fosse um divertimento ininterrupto do nascimento à morte, mas isso pareceria extremamente indigno. Renunciar à dor de existir é desumanizar-se".* 

Pensei até ontem mesmo que meu mal-estar era algo com o qual me deparava ciclicamente em razão das circunstâncias em que minha vida transcorreu. Não é, definitivamente. 

Diferentes fases, diferentes momentos, diferentes situações, inúmeras mudanças... e eu sempre a experimentar essa sensação de perguntar-me: o que é então que tenho de fazer para não sentir esse mal-estar que denomino de tédio? Para o dizer de Wittgenstein, há algo a ser questionado com profundidade em nossas vidas: "Aquele que vive corretamente não experimenta o problema como sofrimento, mas sim como alegria, isto é, como um halo brilhante em torno de sua vida, e não como um pano de fundo duvidoso". E assim sou levada a acreditar (se eu puder acreditar firmemente) que os problemas são convocações para o movimento de deslocar-se até o ato de refletir. Somente por isso já me insiro na humana condição, que, por sua capacidade de perceber-se, coloca-se a pensar em como a vida vem sendo vivida. "Afinal de contas", diz Svendsen, está acima da força de vontade humana encontrar uma maneira de escapar do tédio". Talvez eu me conscientize do que Svendsen alerta: "Toda tentativa de escapar dele diretamente vai, para todos os efeitos, apenas agravá-lo a longo prazo, e toda receita do tipo 'faça você mesmo' deveria ser encarada com o maior ceticismo. Todas as curas recomendadas contra o tédio - como arte, amor ou uma relação com Deus - deveriam ser buscadas por si mesmas e não merecem ser reduzidas a uma mera fuga do tédio".

O fato de existir a crença que preencher o tempo com amor, religião, arte é melhor do que experimentar o vazio existencial, a que eu denomino de tédio, não encoraja enfrentar a dor da reflexão sobre o que me leva a senti-lo.      


* Lars Svendsen. Filosofia do tédio.  As citações foram extraídas do quarto capítulo da obra, pp. 146-66.

quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A cor do tédio

Há seis anos, no dia 14 de janeiro, recebo de presente "Filosofia do Tédio", livro de capa cor de massa de cobrir parede de tijolos, isto é, cinza, de autoria de Lars Svendsen, norueguês, professor de filosofia.

Seis anos depois, dou-me conta que a capa desse livro deveria ter sido o primeiro dado ao qual tinha de ter prestado atenção. Agora o tomo nas mãos e percebo detalhes que dantes não me apareceram.

Pode ser que tenha acontecido comigo aquela máxima: "se você não sabe, não vê". Será que eu não associava o cinza à cor do tédio?

Seria muito esquisito se um livro sobre tédio tivesse uma capa cor de sangue, vermelha ou verde vivo, cor mais exuberante que uma floresta pode conter.

Quem lida com o tédio, como eu, há muuuito tempo, pode não tê-lo tornado suficientemente importante para servir-lhe de inspiração. Mas não é verdade! O tédio subjaz na fonte de onde emanam as ideias que deposito na maioria dos textos que escrevo. Acho que o tédio foi o que me levou a escrever pela primeira vez logo que eu completei minha primeira década de vida. Acompanha-me com uma fidelidade irreparável. Valeria então à pena, como escreve Svendsen, investigar "[...] o problema do tédio"? O autor sustenta a hipótese de que seria tentar compreender quem somos e como nos ajustamos ao mundo.

Tenho uma suspeita a meu respeito. Não sei se poderei acessar quem sou mas o tédio me parece um signo que denuncia a dificuldade de me ajustar ao mundo. É aquela parte que resiste ano após ano, que impossibilita que eu me distraia totalmente com o mundo e seus eventos. É aquele sentimento de inadequação que se manifesta sempre de novo, inserindo-me num interminável cansaço de tudo.

Minha mãe implicava comigo porque na adolescência elegi a cor marrom como minha preferida. Não sabia ela que poderia ter sido pior: ter me afeiçoado ao cinza.

terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O despertar de duas mulheres

Hoje levantei-me novamente com aquela sensação de vazio.
Se minha filha me perguntasse do porquê sentir-me assim, eu lhe diria: não é a sua mãe. Sou eu.
Mas que sensação é esta de ter duas pessoas dentro de mim?
Por que consigo parecer tão lúcida, quando meus pensamentos são como trituradores de esperança?
A maioria das pessoas jamais conhecerá essa angústia. Algumas vão dizer que se trata de depressão.
Esses diagnósticos estão isentos da realidade da qual nasceu minha verdade.
Creio que existam muitas verdades e muitas versões sobre a realidade.
O problema foi me ter constituído querendo escrever sobre minha verdade e sobre minha realidade como se elas fossem as únicas existentes.
Quando eu tinha dez anos, iniciei-me como depositária de palavras no papel.
Cheguei a pensar que fosse sobreviver disso.
As palavras foram sempre apaziguadoras de meu vulcão interior. Uma lava que está sempre acesa e poucas vezes jorra longe ou lança muito conteúdo.
As palavras foram e são insuficientes na maioria do tempo mas não inócuas.
Escrevo e um alívio me invade por algumas horas. Insisto em não precisar escrever, apesar das palavras no papel terem sido o melhor remédio que tomei. Não creio que acertei as doses, foram sempre insuficientes, senão apenas efeito placebo.
Escrever sem sentido... é o que é minha escrita.
O que escrevo não quer nada, não quer comunicar, não quer melhorar a vida de ninguém. Não quer servir para nada. Quer apenas ser o que sai de mim quando estou, assim, como hoje, procurando saber por que acordei com pensamentos tão pessimistas.
O mundo não me satisfaz a maioria do tempo. Preciso de palavras escritas, por escrever.
Quando penso que daqui um pouco estarei distraída com algo, envergonho-me de não ter sido só uma para minha filha. A que não escreve, que consegue acordar pensando no que vai cozinhar para o almoço. Tudo o mais é fantasia, ou melhor, são fantasmas agarrados em alguém que sabe que é preciso se contentar com perguntas sem respostas, já que perguntar parece ser mais difícil do que responder.

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Cansada...

Escrevo para reclamar de mim para mim mesma.
Estou tão cansada do mesmo caminho que venho percorrendo. Sempre sentindo a velha e boa decepção quando não consigo mudar aquilo que me perturba. E vem perturbando há tantos anos!

Não me dou conta facilmente de quem sou. Não me conheço o suficiente mas experimento-me tão igual sempre. Os mesmos motivos, os mesmos sofrimentos, os mesmos pensamentos derrotistas, as mesmas decepções para com minhas parcas transformações.

Eu, por mim, não valho à pena. Não me referenciaria a ninguém como pessoa. Quem ia querer minha angústia, minha baixa autoestima, minha incredulidade e desconfiança na vida? Quem quereria sentir meu tédio e falta de sentido de viver?

Não entendo como um dia poderia acordar de outro jeito. Sentir do avesso, amar encorajadamente sem retorno, andar sem temores pelas ruas da cidade, seguir meus gostos e vontades sem censura. Como é não ser mais eu mesma? Como é ousar mudar?

Pode ser que minha vida tenha feito seu sentido nessa forma de ver minha própria vida. Mas até onde posso ir sem me desintegrar? Até onde posso chegar sem me desfazer de mim mesma? Por que conservar essa desprezível segurança que se mostra em forma de algemas?

"Não sei para onde vou", dizia o poema que declamei aos treze anos, "só sei que não vou por aqui". Quem dera ter podido seguir esse verso. Não há simplesmente motivo para não ter seguido. A vida é sempre vivida de um jeito ou de outro e minha vida vive-se nesse texto que chora o que não pode mudar.

Meus pais já não me dizem como viver, a sociedade pouco se importa como vivo, os conhecidos nem ficam sabendo algo sobre minha pessoa... o que é então que me amarra se sei que meu corpo envelhece a cada dia, se descalcificam meus ossos a cada minuto vivido, se deteriora minha mobilidade física. Por que eu não me levanto e começo um novo caminhar?

As velhas crenças e as constantes orientações da infância são como grandes pérolas legítimas. Tudo o mais fica pequeno diante do poder que delas emana. As pérolas inexistem se eu as ignorar. Estou a procurar esse caminho que as destitui e coloca minhas pedras comuns no lugar.

Talvez haja quem lamente por mim e até queira me animar com soluções que deram certo com outras vidas. Na verdade, não quero soluções nem paliativos. Não quero festas, eventos, trabalho. Não quero distrações que me afastem desse sentimento puro de covardia. Não quero fogos, drogas lícitas ou ilícitas nem comemorações mundanas.

Quero conhecer a alegria e a paz genuínos. Aquilo que não custa nada, que não exige algo em troca. Quero a meditação sobre o desapego à vida e àquilo que nos distrai do precipício. Quero a dor como ela é e o prazer como ele pode me parecer. Quero a gratuidade da verdade sobre o humano.

Não sou uma árvore, que pena! Sou da espécie exigente que pensa e elabora sua existência. Acho que conviverei com esse pensar até o último suspiro. Nesta humana condição, às vezes a dor dói menos e eu vou sorrir de novo.