Seis anos depois, dou-me conta que a capa desse livro deveria ter sido o primeiro dado ao qual tinha de ter prestado atenção. Agora o tomo nas mãos e percebo detalhes que dantes não me apareceram.
Pode ser que tenha acontecido comigo aquela máxima: "se você não sabe, não vê". Será que eu não associava o cinza à cor do tédio?Seria muito esquisito se um livro sobre tédio tivesse uma capa cor de sangue, vermelha ou verde vivo, cor mais exuberante que uma floresta pode conter.
Quem lida com o tédio, como eu, há muuuito tempo, pode não tê-lo tornado suficientemente importante para servir-lhe de inspiração. Mas não é verdade! O tédio subjaz na fonte de onde emanam as ideias que deposito na maioria dos textos que escrevo. Acho que o tédio foi o que me levou a escrever pela primeira vez logo que eu completei minha primeira década de vida. Acompanha-me com uma fidelidade irreparável. Valeria então à pena, como escreve Svendsen, investigar "[...] o problema do tédio"? O autor sustenta a hipótese de que seria tentar compreender quem somos e como nos ajustamos ao mundo.
Tenho uma suspeita a meu respeito. Não sei se poderei acessar quem sou mas o tédio me parece um signo que denuncia a dificuldade de me ajustar ao mundo. É aquela parte que resiste ano após ano, que impossibilita que eu me distraia totalmente com o mundo e seus eventos. É aquele sentimento de inadequação que se manifesta sempre de novo, inserindo-me num interminável cansaço de tudo.
Minha mãe implicava comigo porque na adolescência elegi a cor marrom como minha preferida. Não sabia ela que poderia ter sido pior: ter me afeiçoado ao cinza.

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