domingo, 11 de janeiro de 2015

Tempo e Tédio: uma experiência humanizante



A experiência subjetiva dos seres humanos com o tempo tem possibilitado viver a vida de inúmeras maneiras. Nada mais esclarecedor é o que Svendsen afirma:



"A consciência favorece a reflexão sobre a vida que levamos. E isso leva tempo. Atualmente, quando a eficiência está na ordem do dia, preferimos que tudo se mova num ritmo acelerado, mas quando refletimos sobre o que nos afeta profundamente, precisamos de tempo. [...] faz parte da experiência de tédio levar tempo. Em vez de nos conceder esse tempo, escolhemos bani-lo. Alguém fica feliz graças a todas as diversões - férias, televisão, bebida, drogas, promiscuidade? Dificilmente, mas a maioria de nós fica, pelo menos, um pouco menos infeliz durante algum tempo. Mesmo assim, perguntamos a nós mesmos: que valor têm esses prazeres, exceto como uma maneira de passar o tempo? Podemos nos imaginar sendo capazes de manter o centro do prazer no cérebro constantemente estimulado, de tal modo que a vida fosse um divertimento ininterrupto do nascimento à morte, mas isso pareceria extremamente indigno. Renunciar à dor de existir é desumanizar-se".* 

Pensei até ontem mesmo que meu mal-estar era algo com o qual me deparava ciclicamente em razão das circunstâncias em que minha vida transcorreu. Não é, definitivamente. 

Diferentes fases, diferentes momentos, diferentes situações, inúmeras mudanças... e eu sempre a experimentar essa sensação de perguntar-me: o que é então que tenho de fazer para não sentir esse mal-estar que denomino de tédio? Para o dizer de Wittgenstein, há algo a ser questionado com profundidade em nossas vidas: "Aquele que vive corretamente não experimenta o problema como sofrimento, mas sim como alegria, isto é, como um halo brilhante em torno de sua vida, e não como um pano de fundo duvidoso". E assim sou levada a acreditar (se eu puder acreditar firmemente) que os problemas são convocações para o movimento de deslocar-se até o ato de refletir. Somente por isso já me insiro na humana condição, que, por sua capacidade de perceber-se, coloca-se a pensar em como a vida vem sendo vivida. "Afinal de contas", diz Svendsen, está acima da força de vontade humana encontrar uma maneira de escapar do tédio". Talvez eu me conscientize do que Svendsen alerta: "Toda tentativa de escapar dele diretamente vai, para todos os efeitos, apenas agravá-lo a longo prazo, e toda receita do tipo 'faça você mesmo' deveria ser encarada com o maior ceticismo. Todas as curas recomendadas contra o tédio - como arte, amor ou uma relação com Deus - deveriam ser buscadas por si mesmas e não merecem ser reduzidas a uma mera fuga do tédio".

O fato de existir a crença que preencher o tempo com amor, religião, arte é melhor do que experimentar o vazio existencial, a que eu denomino de tédio, não encoraja enfrentar a dor da reflexão sobre o que me leva a senti-lo.      


* Lars Svendsen. Filosofia do tédio.  As citações foram extraídas do quarto capítulo da obra, pp. 146-66.

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