quarta-feira, 14 de janeiro de 2015

Experimentar e desistir, se for necessário: pelo pensar!

Clarice Lispector quando se dedicou a escrever sobre a realidade foi feliz ao não encerrá-la em uma só definição. Aliás, por definição, ela afirmou que escreveria sobre a realidade fosse ela qual fosse, ou, talvez, fosse ela o reflexo de sua própria subjetividade. 

A realidade é este pequeno punhado de terra que recolho do chão e que me foi revelado pela experiência. Meu punhado de terra escoa com a água da chuva e todo dia tenho de recolhê-lo de novo porque não consigo conter a minha própria transformação. Se acredito ter apanhado todos os punhados que podia, a realidade vem e me diz que ainda não acabei de ver tudo, por isso, "[...] o que nos mostra a experiência é a insuficiência, ou a insatisfação do nosso pensar anterior; necessitamos voltar a pensar porque já não nos vale o anterior frente ao que vivemos, ou do que vemos que passa, que nos passa. Justo, o que faz a experiência ser tal, é isto, que temos de voltar a pensar".*

Deixar se convencer da incansável busca pela experiência fundante ou derradeira é, porém, uma parte da trajetória de quem aprende experimentando. Essa lição, que também é incorporada numa das vezes em que o punhado de terra é recolhido, corre o mesmo risco que encerrar a realidade em uma única versão. Quer dizer, um grandessíssimo dispêndio de vida e energia. Que a realidade valha à pena pelo menos! Já sabemos: às vezes deve ser banida pelo esquecimento,  

Não quero muito. Quero apenas forças para não recolocar meu aprender à frente de qualquer outra sensação, senão à capacidade de me "assombrar", como quer Merleau Ponty, coisa tão difícil quanto construir sentido para o viver. 




* De Contreras e Pérez, 2010, p. 21.

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