terça-feira, 6 de janeiro de 2015

O despertar de duas mulheres

Hoje levantei-me novamente com aquela sensação de vazio.
Se minha filha me perguntasse do porquê sentir-me assim, eu lhe diria: não é a sua mãe. Sou eu.
Mas que sensação é esta de ter duas pessoas dentro de mim?
Por que consigo parecer tão lúcida, quando meus pensamentos são como trituradores de esperança?
A maioria das pessoas jamais conhecerá essa angústia. Algumas vão dizer que se trata de depressão.
Esses diagnósticos estão isentos da realidade da qual nasceu minha verdade.
Creio que existam muitas verdades e muitas versões sobre a realidade.
O problema foi me ter constituído querendo escrever sobre minha verdade e sobre minha realidade como se elas fossem as únicas existentes.
Quando eu tinha dez anos, iniciei-me como depositária de palavras no papel.
Cheguei a pensar que fosse sobreviver disso.
As palavras foram sempre apaziguadoras de meu vulcão interior. Uma lava que está sempre acesa e poucas vezes jorra longe ou lança muito conteúdo.
As palavras foram e são insuficientes na maioria do tempo mas não inócuas.
Escrevo e um alívio me invade por algumas horas. Insisto em não precisar escrever, apesar das palavras no papel terem sido o melhor remédio que tomei. Não creio que acertei as doses, foram sempre insuficientes, senão apenas efeito placebo.
Escrever sem sentido... é o que é minha escrita.
O que escrevo não quer nada, não quer comunicar, não quer melhorar a vida de ninguém. Não quer servir para nada. Quer apenas ser o que sai de mim quando estou, assim, como hoje, procurando saber por que acordei com pensamentos tão pessimistas.
O mundo não me satisfaz a maioria do tempo. Preciso de palavras escritas, por escrever.
Quando penso que daqui um pouco estarei distraída com algo, envergonho-me de não ter sido só uma para minha filha. A que não escreve, que consegue acordar pensando no que vai cozinhar para o almoço. Tudo o mais é fantasia, ou melhor, são fantasmas agarrados em alguém que sabe que é preciso se contentar com perguntas sem respostas, já que perguntar parece ser mais difícil do que responder.

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