Guias de turismo recomendam insistentemente por os pés nesta ponte. Nenhum deles saberia dizer como queria eu sentar um dia inteiro sobre as três pontes que ligam Buda a Peste para supor descobrir o que de colossal tem esse lugar de histórias soterradas sobre cada pilar erguido.
segunda-feira, 25 de maio de 2026
Lugares Felicidade
Lugares Felicidade
Bratislava... uma rua com árvores que me tomaram bucolicamente, porque eu sou bucólica desde que cresci num lugar em que montanhas, árvores, flores, caminhos de seixos me tornaram o que sou. Um misto de sentimentos incompreensíveis circulavam ao meu redor e em cada passada a certeza: caminharei aqui só uma vez.
Lugares Felicidade
Esta fotografia retrata uma fração das águas que correm abundantemente por Amsterdam.
Águas que algumas pessoas nunca verão e outras sonharão em ver de novo, como eu.
A utilidade de um refúgio
Hesse, em sua obra magistral "O lobo da estepe" menciona constantemente a palavra "refúgio". Coloquei-me a pensar o que ela significa para mim, em particular. Lugar, refúgio é um lugar, uma localização geográfica: um canto da casa, do jardim, da montanha, do parque. Mas, de repente, dou-me conta e começo a ampliar o conceito e vislumbro que refúgio é muito mais do que um lugar para onde nos retiramos às vezes. Um momento do dia, um pensamento, uma sensação, uma memória infantil são refúgios também porque são feitos de nossa subjetividade.
Hesse descreve a casa de sua infância, as cores e os odores de então, e eu, a sua semelhança, transporto- me para a época do Natal e da Páscoa, quando nossa casa ficava aconchegante pela limpeza e cuidado que recebia. Não era só uma mania de minha mãe fazer-nos movimentar móveis, vassouras e pano de tirar pó. Era muito mais do que isso. Ela estava sedimentando nossas futuras memórias, onde buscaríamos refúgio. Invocaríamos não o sacrifício e o tédio daquelas horas mas o lugar mágico em que se transformava nossa casa. Ao invés de lembrar que varremos, enceramos, lustramos e lavamos, nossas lembranças estariam presas no fim e no resultado da jornada, no cheiro do pinheirinho, nas velas, na cera, na comida especial, nos doces e no chocolate.
Todos os dias de minha vida são feitos e preenchidos de refúgios.
Obs: A casa da fotografia é um dos refúgios mais felizes que conserva a minha memória. É a casa do Opa e da Oma Franke, tão grande na minha concepção infantil; tão frágil a ponto de ser demolida indiscriminadamente, apesar da resistência das lembranças de todos que lá viveram. As memórias vivem, independentemente da vontade material das coisas.
terça-feira, 14 de outubro de 2025
PALAVRAS
Quando estou indo, já quero voltar.
Se estou dentro de casa, quero sair lá fora
Se me deito para dormir e sair do cansaço, já quero despertar e voar
Se me acovardo e não faço, logo me recrimino e me puno a preguiça
Se escuto os movimentos do mundo, logo acho o meu silêncio alucinante.
Quando acho que já disse tudo, sinto que acaba a minha vida no vazio
Se, é tudo o que tenho a dizer
Não passa de uma tentativa de sobrevivência do intangível
Se, é a dúvida mais cruel
Acabaram as palavras?
Desenho de Stella Helena que traduz o semblante exato para essas palavras.segunda-feira, 22 de setembro de 2025
PERDER
Hoje de manhã perdi o sabor das frutas porque pensei em outra coisa
Na madrugada perdi o sono porque pensei que estava acordada, andando e projetando as soluções dos enigmas dos vivos
Nos últimos anos perdi as fotografias que não tirei porque esperava ficar mais bonita
Perdi a ingenuidade porque esperei que as amizades tornassem a vida mais leve e o que vejo é sempre o mesmo drama
Perdi-me e me perco todos os dias, vai embora a vida como se ela passasse num estreito vão onde não cabemos
E eu penso em não perder de novo
Mas a perda é a única coisa que eu tenho.
Devo perder as certezas, trocá-las pelo ater-me num banco de madeira da praça
Devo perder a lamentação das perdas, deixar que o vazio me console e eu não chorar
Nada se repetirá. Tudo é sempre novo. Se antes fugia para enganar a sensação de perda, hoje perco para me encontrar.
Todo dia eu perco a viagem, o tempo, a saudade.
Já não preciso aproveitar grande coisa. Serei tranquila e com menos peso.
segunda-feira, 8 de setembro de 2025
SE EU VOLTAR... AINDA ENCONTRAREI POR LÁ AS PALAVRAS QUE NÃO ESCREVI
"O escritor está sempre escrevendo", afirma Rosa Montero, (principalmente, digo eu), continua ela, "quando não está com o lápis e o papel na mão". Como não escrever mentalmente diante de lugares como esse?
E quanto pesar em meu corpo pela efêmera passagem, pela falta de tempo e de destreza para memorizar as sensações sentidas diante das cores, dos cheiros, dos jeitos das coisas vistas! O escritor volta com um texto em imagens, capturadas porque elas contém o texto invisível de seu devaneio.
Escrever é um ato de coragem e boa vontade. Tenho freios e invento desculpas para não me aproximar do caderno e da caneta. Escrever nunca pode me parecer uma obrigação quando se refere a minha escolha. É... "todos escrevemos sobre o que os outros já escreveram" diz Montero, ao ler Sergio Pitol. Eu acho que um diário foge um pouco disso porque a vida de cada um é única. Procurei, nos últimos dez anos, escrever em formato de diário para garantir alguma originalidade, ainda que, o que escrevi é a milionésima repetição de todos e de tudo o que me precedeu.













