quarta-feira, 22 de julho de 2026

LUGARES FELICIDADE


 Quantas vezes é possível reunir três gerações num lugar tão distante de onde nasceram?

Assim foi possível em Viena: quatro mulheres, cada uma carregando sua própria sensação para aquele momento. A pequena foi a razão da felicidade das outras três adultas. E não é necessário descrever mais nada. Uma imagem sempre reúne sua própria razão de ser. 

segunda-feira, 25 de maio de 2026

Lugares Felicidade


Eu nem bem havia saído de Budapest e já sabia que me retornariam fortemente as imagens deste lugar.

Guias de turismo recomendam insistentemente por os pés nesta ponte. Nenhum deles saberia dizer como queria eu sentar um dia inteiro sobre as três pontes que ligam Buda a Peste para supor descobrir o que de colossal tem esse lugar de histórias soterradas sobre cada pilar erguido. 
 

Lugares Felicidade


 Bratislava... uma rua com árvores que me tomaram bucolicamente, porque eu sou bucólica desde que cresci num lugar em que montanhas, árvores, flores, caminhos de seixos me tornaram o que sou. Um misto de sentimentos incompreensíveis circulavam ao meu redor e em cada passada a certeza: caminharei aqui só uma vez.  

Lugares Felicidade


 Esta fotografia retrata uma fração das águas que correm abundantemente por Amsterdam. 

Águas que algumas pessoas nunca verão e outras sonharão em ver de novo, como eu. 

A utilidade de um refúgio

 



Hesse, em sua obra magistral "O lobo da estepe" menciona constantemente a palavra "refúgio". Coloquei-me a pensar o que ela significa para mim, em particular. Lugar, refúgio é um lugar, uma localização geográfica: um canto da casa, do jardim, da montanha, do parque. Mas, de repente, dou-me conta e começo a ampliar o conceito e vislumbro que refúgio é muito mais do que um lugar para onde nos retiramos às vezes. Um momento do dia, um pensamento, uma sensação, uma memória infantil são refúgios também porque são feitos de nossa subjetividade.  

Hesse descreve a casa de sua infância, as cores e os odores de então, e eu, a sua semelhança, transporto- me para a época do Natal e da Páscoa, quando nossa casa ficava aconchegante pela limpeza e cuidado que recebia. Não era só uma mania de minha mãe fazer-nos movimentar móveis, vassouras e pano de tirar pó. Era muito mais do que isso. Ela estava sedimentando nossas futuras memórias, onde buscaríamos refúgio. Invocaríamos não o sacrifício e o tédio daquelas horas mas o lugar mágico em que se transformava nossa casa. Ao invés de lembrar que varremos, enceramos, lustramos e lavamos, nossas lembranças estariam presas no fim e no resultado da jornada, no cheiro do pinheirinho, nas velas, na cera, na comida especial, nos doces e no chocolate. 

Todos os dias de minha vida são feitos e preenchidos de refúgios.  

Obs: A casa da fotografia é um dos refúgios mais felizes que conserva a minha memória. É a casa do Opa e da Oma Franke, tão grande na minha concepção infantil; tão frágil a ponto de ser demolida indiscriminadamente, apesar da resistência das lembranças de todos que lá viveram. As memórias vivem, independentemente da vontade material das coisas.  

terça-feira, 14 de outubro de 2025

PALAVRAS

Quando estou indo, já quero voltar.

Se estou dentro de casa, quero sair lá fora

Se me deito para dormir e sair do cansaço, já quero despertar e voar

Se me acovardo e não faço, logo me recrimino e me puno a preguiça

Se escuto os movimentos do mundo, logo acho o meu silêncio alucinante.

Quando acho que já disse tudo, sinto que acaba a minha vida no vazio

Se, é tudo o que tenho a dizer

Não passa de uma tentativa de sobrevivência do intangível

Se, é a dúvida mais cruel

Acabaram as palavras?

Desenho de Stella Helena que traduz o semblante exato para essas palavras.



segunda-feira, 22 de setembro de 2025

PERDER

 Hoje de manhã perdi o sabor das frutas porque pensei em outra coisa

Na madrugada perdi o sono porque pensei que estava acordada, andando e projetando as soluções dos enigmas dos vivos

Nos últimos anos perdi as fotografias que não tirei porque esperava ficar mais bonita

Perdi a ingenuidade porque esperei que as amizades tornassem a vida mais leve e o que vejo é sempre o mesmo drama

Perdi-me e me perco todos os dias, vai embora a vida como se ela passasse num estreito vão onde não cabemos

E eu penso em não perder de novo

Mas a perda é a única coisa que eu tenho.

Devo perder as certezas, trocá-las pelo ater-me num banco de madeira da praça

Devo perder a lamentação das perdas, deixar que o vazio me console e eu não chorar

Nada se repetirá. Tudo é sempre novo. Se antes fugia para enganar a sensação de perda, hoje perco para me encontrar.

Todo dia eu perco a viagem, o tempo, a saudade. 

Já não preciso aproveitar grande coisa. Serei tranquila e com menos peso.