terça-feira, 14 de outubro de 2025

PALAVRAS

Quando estou indo, já quero voltar.

Se estou dentro de casa, quero sair lá fora

Se me deito para dormir e sair do cansaço, já quero despertar e voar

Se me acovardo e não faço, logo me recrimino e me puno a preguiça

Se escuto os movimentos do mundo, logo acho o meu silêncio alucinante.

Quando acho que já disse tudo, sinto que acaba a minha vida no vazio

Se, é tudo o que tenho a dizer

Não passa de uma tentativa de sobrevivência do intangível

Se, é a dúvida mais cruel

Acabaram as palavras?

Desenho de Stella Helena que traduz o semblante exato para essas palavras.



segunda-feira, 22 de setembro de 2025

PERDER

 Hoje de manhã perdi o sabor das frutas porque pensei em outra coisa

Na madrugada perdi o sono porque pensei que estava acordada, andando e projetando as soluções dos enigmas dos vivos

Nos últimos anos perdi as fotografias que não tirei porque esperava ficar mais bonita

Perdi a ingenuidade porque esperei que as amizades tornassem a vida mais leve e o que vejo é sempre o mesmo drama

Perdi-me e me perco todos os dias, vai embora a vida como se ela passasse num estreito vão onde não cabemos

E eu penso em não perder de novo

Mas a perda é a única coisa que eu tenho.

Devo perder as certezas, trocá-las pelo ater-me num banco de madeira da praça

Devo perder a lamentação das perdas, deixar que o vazio me console e eu não chorar

Nada se repetirá. Tudo é sempre novo. Se antes fugia para enganar a sensação de perda, hoje perco para me encontrar.

Todo dia eu perco a viagem, o tempo, a saudade. 

Já não preciso aproveitar grande coisa. Serei tranquila e com menos peso.  




segunda-feira, 8 de setembro de 2025

SE EU VOLTAR... AINDA ENCONTRAREI POR LÁ AS PALAVRAS QUE NÃO ESCREVI

 "O escritor está sempre escrevendo", afirma Rosa Montero, (principalmente, digo eu), continua ela, "quando não está com o lápis e o papel na mão". Como não escrever mentalmente diante de lugares como esse?



 E quanto pesar em meu corpo pela efêmera passagem, pela falta de tempo e de destreza para memorizar as sensações sentidas diante das cores, dos cheiros, dos jeitos das coisas vistas! O escritor volta com um texto em imagens, capturadas porque elas contém o texto invisível de seu devaneio. 



Escrever é um ato de coragem e boa vontade. Tenho freios e invento desculpas para não me aproximar do caderno e da caneta. Escrever nunca pode me parecer uma obrigação quando se refere a minha escolha. É... "todos escrevemos sobre o que os outros já escreveram" diz Montero, ao ler Sergio Pitol. Eu acho que um diário foge um pouco disso porque a vida de cada um é única. Procurei, nos últimos dez anos, escrever em formato de diário para garantir alguma originalidade, ainda que, o que escrevi é a milionésima repetição de todos e de tudo o que me precedeu. 






terça-feira, 12 de agosto de 2025

BUDAPESTE: o monumental e a insignificância do olhar que registra











Estive em Budapeste.

Uma sensação triste e incomensurável


Meu corpo ocupando um pequeno espaço momentaneamente

As ruas gigantes e longas

As paredes tão altas e as cúpulas antigas inalcançáveis

Pessoas, muitas pessoas, andando, correndo em suas vidas

E eu, um pouco ali, sem modificar nada com o espaço que meu corpo ocupava

Palavras ouvidas, tão incompreensíveis

Todo o mundo começava ali e terminava

Não sei se estava triste ou alegre diante das tantas árvores e alguns canteiros de flores

Queria ter visto a sala de estar, as camas e suas cobertas

A cozinha e os seus apetrechos.

Budapeste foi contada 

Suas pontes visitadas

Seus monumentos confirmados

Imaginei Budapeste num dia de chuva, cinza e mais frio 

Imaginei as crianças na rua

As casas vermelhas, amarelas e azuis

Não, não seria mais a mesma cidade

Deixo Budapeste ser quem ela sempre foi.




Por que escrevo?




Escrevo porque não sei

Porque comprei uma blusa verde e já é quase primavera

Porque me sufoca a ignorância no quarto escuro

Escrevo porque não encontro as respostas para as perguntas impossíveis

Porque a dor na perna não é minha dor costumeira

Porque a estrada tem vento e está cheia de pressa

Escrevo porque todo dia a dor me sufoca o grito

Porque não sei nada 

Porque sem escrever o medo aumenta e a covardia parece inútil

Escrevo porque tomei banho cedo e saí andando 

Porque sempre há algo lá fora que não encontro cá dentro

Porque meu quarto é quente e meu livro me espera fechado

Escrevo porque leio as palavras alheias com preguiça

Porque não me bastam

Porque escrever é tanto como falar

Escrevo porque depois os motivos serão esquecidos

Porque a fome de pão encobre meu desejo faminto

Porque não sei para quem dizer

Escrevo porque amo as letras do meu idioma

Porque me faz feliz ter pensamentos

Porque choro palavras que não viram texto

Escrevo para aplacar minha angústia de existir

Porque não quero esquecer

Porque escrever é meu modo de dizer que não sei.





segunda-feira, 7 de julho de 2025

UM LUGAR EM PRAGA

 



Um conglomerado de prédios, que não ultrapassam quatro andares, visto de cima, sem estar num avião, nem em um balão, muito menos fotografado por um drone.

Era eu, extasiada, com a câmera do celular ligada, sobre um viaduto, a registrar o lugar. Um parque arborizado ao lado, ruas em linha reta, paralelas, não muitas, exatamente na mesma ordem. 





 E esse trecho da cidade foi o que me marcou em Praga. Essa regularidade, essa repetição, essa ordem nas edificações, esse padrão na vida de moradores que eu desconheço. 







DEVAGAR

 



Aqui dentro uma explosão eu experimentei

Lá fora nada quero, sou pequena, sou fugaz

Prendo o pensamento para viajar no lugar de ficar

As asas bateram livres

Nada posso querer agora. 


Perdi o minuto, a falta, o manto, a luz

Ganhei o porquê, da tristeza, da dor do não saber

O dia carrega luminosidade, enche as horas vazias de calor

A noite quer viver. 

Seu cheiro embriaga, altera o ar, venta devagar, distribui o não ver.