segunda-feira, 22 de setembro de 2025

PERDER

 Hoje de manhã perdi o sabor das frutas porque pensei em outra coisa

Na madrugada perdi o sono porque pensei que estava acordada, andando e projetando as soluções dos enigmas dos vivos

Nos últimos anos perdi as fotografias que não tirei porque esperava ficar mais bonita

Perdi a ingenuidade porque esperei que as amizades tornassem a vida mais leve e o que vejo é sempre o mesmo drama

Perdi-me e me perco todos os dias, vai embora a vida como se ela passasse num estreito vão onde não cabemos

E eu penso em não perder de novo

Mas a perda é a única coisa que eu tenho.

Devo perder as certezas, trocá-las pelo ater-me num banco de madeira da praça

Devo perder a lamentação das perdas, deixar que o vazio me console e eu não chorar

Nada se repetirá. Tudo é sempre novo. Se antes fugia para enganar a sensação de perda, hoje perco para me encontrar.

Todo dia eu perco a viagem, o tempo, a saudade. 

Já não preciso aproveitar grande coisa. Serei tranquila e com menos peso.  




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