terça-feira, 21 de abril de 2015

Impotência





Que dia é esse ? pergunta meu pensamento.
Que sentir eu experimento? pergunta meu corpo.
Que sensação é essa? interroga minha vida.

Estou presa dentro de meu corpo.
Minhas asas podadas não conseguem subir na montanha.
Meu rosto não molha com lágrimas.
Parei de sentir.
Meu corpo exibe seu colapso.
O grito não sai.

sexta-feira, 10 de abril de 2015

Na companhia das palavras

Ah, as palavras.... essas indomáveis coisas que seres humanos pronunciam
Que não se deixam organizar quando recolhidas do chão
Que desatinam a falar sem pensar e descobrem-se incapazes
De amenizar ou incitar se a vida não lhes parar.

A culpa é da palavra.
Palavra rude, subversiva, dilacerante.
Mas uma palavra sempre está inocente
Enquanto a culpa ainda não se pronunciou.

A palavra somos nós todos
Quando escapa da intimidade.
Dá nome a homens e mulheres
Mistura-se ao sangue e à carne.

Palavra é bênção
Para um modo de fazer as coisas.
Quando todo mundo olha
Mas o que se vê são palavras em forma de gestos.

A palavra é luz no mundo de quem desconhece.
Imprime esperança no gesto de quem ouve.
Serena lábios e sorrisos
Depois se esconde como se nunca tivesse sido dita.

A Palavra – um desafio
Ronda os quartos da casa
Esconde-se e reaparece
Quando a música toca e alguém senta a escrevê-la.

Na palavra me invento, invento os outros.
Invento minha vida, meus problemas, minha saída.
Na palavra me fiz humana, ainda que demasiado diversa.
Dói-me agora não conhecer tudo.

Na palavra: o medo, a vergonha, a ideologia.
Essa(s) palavra(s) persegue(m) as existências
De sonhadores que se distanciaram
Da primeira palavra que foi negação.

A palavra que não direi: adeus.
A palavra que não conjugarei: hipócrita.
A palavra que não pensarei: prisão.
A palavra que não sentirei: pobre.

A palavra mais bela é aquela que não soa como palavra.
A palavra mais saudosa é aquela que vem na lágrima.
A palavra mais sonhadora é aquela que projeta um amor.
A palavra mais concreta é aquela que se deixa abstrair.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Ventania de palavras

Palavras são castelos que você constrói.
Às vezes parece que seu arsenal de palavras se limitou deveras.
E se limitou mesmo! A boca não pronuncia mais nada. A estagnação acontece.

Depois, entra uma nova estação e tudo pode mudar.
O bom desse jogo é quem sabe contemplar a ida e a vinda das palavras.
Ora para levantar, ora para derrubar.

Pior são os dias em que as palavras não querem nada.
Não são de limão, não são de laranja.
São amorfas criaturas que não te tiram da cama.

Um dia, quando as palavras nos abandonam
O desespero do não saber o que querem
Agimos mais do que falamos
Porque palavras vêm quando não as chamamos.

Pensar em aprisionar as palavras é trovão se formando
Elas caem como garoa: finas, silenciosas, embalam.
Estão na memória dos amantes,
Estão no soprar dos ventos,
Estão no farfalhar das palmeiras,
Estão escondidas nas curvas da vida silenciosa.

Quer uma palavra?

quinta-feira, 2 de abril de 2015

Como eu

Tenho me conhecido pelos outros.
Pelo que os outros acumularam a meu respeito.
Faço parte de uma massa que intensificou-se nas certezas, tão frágeis e quebradiças, no fim.
Eu não me conheço e me sou tão familiar.
Cada gesto e pensamento que sai de mim eu nem reconheço.
Os outros me descrevem e eu me surpreendo.
Vou levantando desculpas e fugindo da padronização.
Mas eu sou assim, inegável constatação.

Tenho pensado em como seria nascer de novo para mim.
Que eu faria diferente?
Não há nenhuma necessidade de morrer e reencarnar.
Às vezes, tudo acontece aqui mesmo.
Acho-me agraciada pela vida: duas vezes