Ah, as palavras....
essas indomáveis coisas que seres humanos pronunciam
Que não se deixam
organizar quando recolhidas do chão
Que desatinam a falar
sem pensar e descobrem-se incapazes
De amenizar ou incitar
se a vida não lhes parar.

A culpa é da palavra.
Palavra rude,
subversiva, dilacerante.
Mas uma palavra sempre
está inocente
Enquanto a culpa ainda
não se pronunciou.
A palavra somos nós
todos
Quando escapa da
intimidade.
Dá nome a homens e
mulheres
Mistura-se ao sangue e
à carne.
Palavra é bênção
Para um modo de fazer
as coisas.
Quando todo mundo olha
Mas o que se vê são
palavras em forma de gestos.
A palavra é luz no
mundo de quem desconhece.
Imprime esperança no
gesto de quem ouve.
Serena lábios e
sorrisos
Depois se esconde como
se nunca tivesse sido dita.
A Palavra – um
desafio
Ronda os quartos da
casa
Esconde-se e reaparece
Quando a música toca e
alguém senta a escrevê-la.
Na palavra me invento,
invento os outros.
Invento minha vida,
meus problemas, minha saída.
Na palavra me fiz
humana, ainda que demasiado diversa.
Dói-me agora não
conhecer tudo.
Na palavra: o medo, a
vergonha, a ideologia.
Essa(s) palavra(s)
persegue(m) as existências
De sonhadores que se
distanciaram
Da primeira palavra que
foi negação.
A palavra que não
direi: adeus.
A palavra que não
conjugarei: hipócrita.
A palavra que não
pensarei: prisão.
A palavra que não
sentirei: pobre.
A palavra mais bela é
aquela que não soa como palavra.
A palavra mais saudosa
é aquela que vem na lágrima.
A palavra mais
sonhadora é aquela que projeta um amor.
A palavra mais concreta
é aquela que se deixa abstrair.