Eu já sabia que ia sentir alívio do trabalho que me custou dezenas de horas de atenção sem trégua. Eu sabia, sobretudo, que o cansaço inicial ia durar dois dias e que no terceiro acordaria já pensando que o relógio não me despertou e que aquele sono que me incomodava todas as manhãs não estaria mais lá. Como posso me perdoar tamanha inquietude se necessito exatamente desse vazio para me refazer as forças? E quantas vezes isto aqui já foi pensado e escrito por milhares de pessoas que são acometidas pelo mesmo sentimento! A minha vida me pede algo que eu não consigo buscar muito bem. Se saio, quero voltar. Se volto, quero sair. Se durmo, quero acordar. Se acordo, quero dormir para esquecer. Essa crueldade da vida perfeita que me impinjo me dilacera. Não havia pensado esse estado das coisas. Mas elas de novo se mostram tão familiares.
O que é que me segura? Por que não vou? Vou para onde se já quero voltar?Disfarço, disfarço, disfarço mas eu estou mesmo muito entediada.
Hoje é só um dia! Mas e todos os outros?
Como será ter todos os dias à frente?
O que farei com todo o tempo que tenho?
Como avançarei sem me deixar cansar de lutar, quando lutar parece abocanhar o tempo que não aguento sentir?
Por que não consigo sentir a passagem do tempo e acho que tudo está parado de tanto tédio?
Eu tenho problemas com sentimentos. Senti- mentos... será que é sentir com a mente?
Não sei o que é estar comigo sem me submeter aos costumeiros questionamentos.
