As grandes me amedrontam.
Detalhes me são sussurrados nas frestas do cotidiano repetitivo.
Acho que não pode haver sentido na normalidade.
Mil pensamentos... não, uma dezena mil vezes.
Ida e volta, lá está ele de novo e sempre de novo e se renovando, virando uma avalanche.
Arrasa-me, desconstrói-me, perfura, desequilibra esse pensamento.
Na verdade, há só um pensamento predominante de cada vez.
Poderia assassinar esse pensamento, estrangulá-lo, livrar-me dele, extirpá-lo, torná-lo invisível.
O pensamento ganha corpo cada vez mais, corrói minha mais pura intenção,
dilacera minhas esperanças, luta corporalmente com meu corpo frágil e sem vontade.
Meu pensamento é mau.
Asfixia as boas coisas da vida. Que vida? A invenção? A criação? A suspensão da consciência?
Meu pensamento insiste em me fazer desistir de pensar nele, Mas o mau pensamento vence.
Adentra a madrugada, tira o sono, perturba o corpo, atrapalha a paz.
Agarro-me ao travesseiro e lá também meu pensamento está escondido.
Estou escrevendo sobre meu mau pensamento para ver se o venço.
Parece que agora ele perdeu um pouco a força pois estou a escrever sobre ele.
De repente, meu pensamento se vê observado e ele se esconde.
Na verdade escrever sobre meu pensamento tira a força destruidora dele.
A que me faz ter pena de mim mesma.
A que me humilha.
A que me reduz a refém.
A que me aniquila.
Eu quero um novo pensamento para ir dormir,
Um jardim florido mesclado de cores vivas,
A vida que busco na leveza do sono, sem despertar antes da hora,
Eu quero dormir sem pensar meu pensamento mau.
Mil vezes meu pensamento eu mato.
Mas ele é tão forte e profundo.
