domingo, 31 de maio de 2015

Pensamento assassino

Coisas pequenas me afetam...
As grandes me amedrontam.
Detalhes me são sussurrados nas frestas do cotidiano repetitivo.
Acho que não pode haver sentido na normalidade.

Mil pensamentos... não, uma dezena mil vezes.
Ida e volta, lá está ele de novo e sempre de novo e se renovando, virando uma avalanche.
Arrasa-me, desconstrói-me, perfura, desequilibra esse pensamento.
Na verdade, há só um pensamento predominante de cada vez.

Poderia assassinar esse pensamento, estrangulá-lo, livrar-me dele, extirpá-lo, torná-lo invisível.
O pensamento ganha corpo cada vez mais, corrói minha mais pura intenção,
dilacera minhas esperanças, luta corporalmente com meu corpo frágil e sem vontade.

Meu pensamento é mau.
Asfixia as boas coisas da vida. Que vida? A invenção? A criação? A suspensão da consciência?
Meu pensamento insiste em me fazer desistir de pensar nele, Mas o mau pensamento vence.
Adentra a madrugada, tira o sono, perturba o corpo, atrapalha a paz.
Agarro-me ao travesseiro e lá também meu pensamento está escondido.

Estou escrevendo sobre meu mau pensamento para ver se o venço.
Para ver se o engano, diminuo sua potência, rio-me dele, reduzo-o a quase nada.
Parece que agora ele perdeu um pouco a força pois estou a escrever sobre ele.
De repente, meu pensamento se vê observado e ele se esconde.

Na verdade escrever sobre meu pensamento tira a força destruidora dele.
A que me faz ter pena de mim mesma.
A que me humilha.
A que me reduz a refém.
A que me aniquila.

Eu quero um novo pensamento para ir dormir,
Um jardim florido mesclado de cores vivas,
A vida que busco na leveza do sono, sem despertar antes da hora,
Eu quero dormir sem pensar meu pensamento mau.

Mil vezes meu pensamento eu mato.
Mas ele é tão forte e profundo.

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