quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

Ondas salgadas do tédio

O fim do ano chegou.
Eu já sabia que ia sentir alívio do trabalho que me custou dezenas de horas de atenção sem trégua. Eu sabia, sobretudo, que o cansaço inicial ia durar dois dias e que no terceiro acordaria já pensando que o relógio não me despertou e que aquele sono que me incomodava todas as manhãs não estaria mais lá. Como posso me perdoar tamanha inquietude se necessito exatamente desse vazio para me refazer as forças? E quantas vezes isto aqui já foi pensado e escrito por milhares de pessoas que são acometidas pelo mesmo sentimento! A minha vida me pede algo que eu não consigo buscar muito bem. Se saio, quero voltar. Se volto, quero sair. Se durmo, quero acordar. Se acordo, quero dormir para esquecer. Essa crueldade da vida perfeita que me impinjo me dilacera. Não havia pensado esse estado das coisas. Mas elas de novo se mostram tão familiares.
O que é que me segura? Por que não vou? Vou para onde se já quero voltar?
Disfarço, disfarço, disfarço mas eu estou mesmo muito entediada.
Hoje é só um dia! Mas e todos os outros?
Como será ter todos os dias à frente?
O que farei com todo o tempo que tenho?
Como avançarei sem me deixar cansar de lutar, quando lutar parece abocanhar o tempo que não aguento sentir?
Por que não consigo sentir a passagem do tempo e acho que tudo está parado de tanto tédio?
Eu tenho problemas com sentimentos. Senti- mentos... será que é sentir com a mente?

Não sei o que é estar comigo sem me submeter aos costumeiros questionamentos.

domingo, 23 de outubro de 2016

Vinte mais três...

Como eu vou me lembrar do dia de hoje?
O que eu fiz?
O que pensei?
O que senti?
Com quem falei?
Quem eu vi?
De quê fiz parte?
Com o quê me comprometi?
Como as horas passaram?

Viver sempre neste jeito recluso não me deu nenhum preparo para lá fora me sentir cheia de mim.
As paredes deste pequeno lugar que habito seguram a minha existência e impedem que eu me desmanche no ar.

O silêncio... o silêncio...
O amor... o amor...
O medo... o medo...
As horas... as horas...
O vazio... o vazio...
A paz e a paixão se antagonizando...

Daqui um pouco, fechar os olhos e pensar nas pessoas que não chamei...
Nas que não quis ver, nas que não quis encontrar, nas que não quis dar meu olhar.
Quero e não quero saber das pessoas. Quero e não quero pensar que elas estão ali, apesar de me esconder.

Não sei quem sou. Nem sei se fui.

sexta-feira, 7 de outubro de 2016

Cinza de medo

Sempre que escrevo acredito que desta vez a ferida vai sarar e a angústia vai passar.
E é real. Mas em pouco tempo, o cinza predomina.
O vermelho, o azul, o verde e o amarelo começam a desbotar e seus matizes dão lugar a pensamentos, que, com a mesma força dantes, carregam-me para dentro da caverna onde mora o medo de viver.
Em pouco tempo estou tão pequena e amedrontada que até os passarinhos mais frágeis parecerão mais fortes do que eu.

É sempre isso. Foi assim. Tem sido assim. Continua assim.

Toda angústia que mora nesse meu ser tem sido uma senhora solitária.
Eu mesma me desamparo. Na fraqueza em continuar meu sofrimento se alimenta.
E se eu não escrevesse? E se eu me embebedasse, me sedasse, me tornasse dependente de algo que aliviasse esse sofrimento?

Quando estou feliz, não escrevo.
Não escrevo a felicidade.
Não homenageio a alegria.
Eu quase não existo sem minha tristeza e angústia.

Tenho medo de ser outra pessoa. E o mesmo medo que me alimenta de ser eu, garante minha continuação. Vou continuar. Assim, ancorada nas incertezas, nas inseguranças, seguindo. Nem sei como consigo tomar banho. Vou e abro o registro.

domingo, 18 de setembro de 2016

Descontente com a realidade


Uma irritante sensação de irritação de novo me invadiu nesse anoitecer de domingo.
Como se me faltasse algo de difícil detecção.
Um doce que não adoçava suficiente o amargo da língua travada pelo indizível.
Um tempo que não conseguia se explicar por sua duração infinita.

Estou descontente com a realidade. É. É isso que está sendo dito pelo domingo.

No fundo não é nada disso. É muito mais libertador. É uma descoberta fantástica que de descontente
me causou um profundo alento. Pois que achava estava fora, está aqui e sempre esteve: o ser amado não existe. Não existe. Não existe ser. Nem amado. Amado ser. Ser amado. Existir, ser. Não e não.

Não aceito essa realidade e escrevo isso. Não aceito e protesto. Grito através dessas palavras. Tudo é um motivo para desfazer o que se impõe. A realidade é horrível. Produz-me choro e desconsolo. Faz-me sentir pequena e desmedida. Pensa que sou intransigente. Que procuro o impossível.

O ser amado não existe. Ele nunca quis ser. Ele não quer existir. Não quer ser criado. Quer ser invisível. O ser amado não pode viver.

domingo, 11 de setembro de 2016

Amanhã

O tempo caminha para o amanhã.
O que quero fazer com isso?
Talvez chorar sobre o passado como uma reação contrária ao plano de viver.
Talvez não pensar que apesar de tudo, tenho já tudo nesse pouco que é sempre o tudo.

Mas há algo que eu posso fazer: um pouco de esforço e uma certeza de que há uma grande importância no que posso realizar.
A pequena felicidade de me propor algo que posso fazer ou o que farei, será muito muito muito importante para o funcionamento de algumas vidas.

Senão isso, que trago em minhas mãos?
Quem pensa, quem pergunta, quem?
O do porquê das coisas serem como são?

Esse que faz e faz e nunca sabe o sentido. São interpretações tolas de quem quer adivinhar a vida dos outros. Não temos nada a fazer com o outro. O coração que não deve parar é o meu. A respiração é minha. A inconsciência é em mim que se oculta. Eu tenho apenas a mim mesma.

Diante dessa chuva de procuras, eu me acho e me dou paz para dormir hoje.

Lá fora, escuridão. Que significa ficar escuro? Que faço com a escuridão?
Agora, nada mais tenho a propor-me.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

LEMBRANÇAS...

Separo um momento desse longo tempo do dia
Curto para começar um nova vida
Longo para continuar com os mesmos pensamentos
Mas um tempo suficientemente bom para sentir.

Como está essa criança que me habita desamparada?
Onde está a mão que a protegerá?

A noite caiu. O sol brilha do outro lado.
O friozinho me embala. O ar me encobre de susto.

Meus olhos estão lá na frente. Não querem ver a senhora do tempo que avisa.
Eu me lanço no precipício do futuro. Pego minhas lembranças como prova de vida.

Alguns cacos me afetam e outros me consolam.
Minhas roupas estão sobre a cama.
Meu travesseiro segura meu sono.
Mas eu saio. Procuro e acho mais lembranças.

Anel. Cavalos. Estrelas. Lua. Planta. Vestido. Sapato. Fotografias. Porta joias. Gargantilha. Cartas.

domingo, 26 de junho de 2016

Esquecer de mim

Vez por outra esqueço tudo.
Sou só eu criança de novo.

Mas que criança frágil eu fui
Ou sempre pensei que fui.

Por que não me fortaleci na natureza que me cercou
No frio desamparado que o inverno impinge
No calor que me maltratava o dia. Por que, por que sou eu a perguntar.

ESQUEÇA...
Só um pensamento
Só um querer
Só um momento

Se esquecer, quem vai me fazer lembrar?
Não existe aquilo que você não pensa.

Só não pense. Siga, leve e sorrindo, contando os passos
as pedras, as árvores e os minutos de paz e sem dor.
Felicidade pequena, melhor que felicidade que se teme perder de tanta.

quarta-feira, 20 de abril de 2016

As minhas versões

Sou o dia de hoje.
Meu quarto interior. Minha casa interior. Meus objetos íntimos.

Farrapos de vida esquecida. Pedaços de caminhos resistentes.

Respiro o ar e meus pulmões só tem a mim para pedir.

Eu sou a vida que tenho. Eu sou meus desejos. Eu sou minhas respostas.

Eu sou a outra e eu mesma. Eu sou a criança e o adulto em mim.

Eu sou meu riso e meu choro. Meu desamparo e carinho. O colo perdido e a saudade achada.

Eu sou meu bem e meu inferno. Eu sou a marca e os desapegos.

Sou a que me protege e acolhe e também a que se perde e desanima.
Sou o que restou das tentativas dos meus pais e os seus maiores temores.
Eu sou forte e de luz apagada também.

Meu pensamento só vai até a porta. Da porta em diante deixei a chave cair.
Sou feita de asas e pés descalços. De sangue e calor é nutrido meu corpo.
Sou filha do sol e da noite.

Meus olhos se fecham e abrem esquecidos de si.
Sou a dor e o consolo de minha criança desamparada.
Sou feliz e descontente sem o doce viver do inconsciente.

Amada e desalmada, perdida e totalmente certa de si.
Sou a relva fresca e a brisa morna que nada pede.
Sou a coisa mais importante que tenho.

Com os remendos ou a roupa nova, sou ainda sempre eu mesma.
Não nego nem concordo. Ando meio longe e volto rápido.
A vida me convida a fechar um pouco os olhos e sorrir de vazia que ela é.

E tudo pode ser feliz quando eu quiser.
Quando eu quiser...

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Paz

Queria compreender a guerra que se trava em mim quando não estou em paz.

Perco o rumo, fico perplexa, escondo-me, acanho-me, esvazia minha alma.

Alma vazia e com uma dor que me rouba o pensamento.

Procuro dormir e voar bem alto.

Peço ajuda. Os deuses me escutam. Eu começo a desandar.

Privem-me do prazer. Preciso ficar em paz.

domingo, 20 de março de 2016

Desencontro

Nunca a solidão fica tão intensa como depois de um encontro de pessoas.
Um "vício" que detém a querer que esse momento não acabe.
Um vazio escuro e profundo domina o sentir e o pensar.
É um encontro que desata os risos e as alegrias.
É tão difícil começar a sentir quanto parar depois.
Não se sabe como desistir.

Eu, por exemplo, nunca quero parar de sentir.
É uma substância que entorpece e remete a entristecer.

Para quê encontros?
O (des)encontro é mais longo e faz examinar os detalhes.
Sonhos e devaneios resultam.
Não quero acordar.

quarta-feira, 13 de janeiro de 2016

Queixas sobre mim

Não sou menina travessa que aproveita a tarde para brincar no balanço
Nas tardes de verão, a procurar as goiabas no ponto
Não sei mais fingir um papel que não tenho a cumprir antes da hora
Os lagos não estão mais profundos
As canoas ficaram pequenas
As árvores pararam de encantar

Não sou mais ingênua e perdi minha imaginação na passagem dos anos
Não sei mais me arriscar e ficar sem medo
Ajo como se minha vida pudesse ser redesenhada se eu me comportar
A inocência ficou e eu segui tão consciente

Se eu fugir com minha trouxinha de roupa
Ficarei a pensar o tempo todo
Que mamãe vai brigar
Então eu fico e me resigno a sorrir
Quando aqui dentro o desejo deve ser sublimado
Como um cisne que virou ganso cinza.