sexta-feira, 10 de abril de 2015

Na companhia das palavras

Ah, as palavras.... essas indomáveis coisas que seres humanos pronunciam
Que não se deixam organizar quando recolhidas do chão
Que desatinam a falar sem pensar e descobrem-se incapazes
De amenizar ou incitar se a vida não lhes parar.

A culpa é da palavra.
Palavra rude, subversiva, dilacerante.
Mas uma palavra sempre está inocente
Enquanto a culpa ainda não se pronunciou.

A palavra somos nós todos
Quando escapa da intimidade.
Dá nome a homens e mulheres
Mistura-se ao sangue e à carne.

Palavra é bênção
Para um modo de fazer as coisas.
Quando todo mundo olha
Mas o que se vê são palavras em forma de gestos.

A palavra é luz no mundo de quem desconhece.
Imprime esperança no gesto de quem ouve.
Serena lábios e sorrisos
Depois se esconde como se nunca tivesse sido dita.

A Palavra – um desafio
Ronda os quartos da casa
Esconde-se e reaparece
Quando a música toca e alguém senta a escrevê-la.

Na palavra me invento, invento os outros.
Invento minha vida, meus problemas, minha saída.
Na palavra me fiz humana, ainda que demasiado diversa.
Dói-me agora não conhecer tudo.

Na palavra: o medo, a vergonha, a ideologia.
Essa(s) palavra(s) persegue(m) as existências
De sonhadores que se distanciaram
Da primeira palavra que foi negação.

A palavra que não direi: adeus.
A palavra que não conjugarei: hipócrita.
A palavra que não pensarei: prisão.
A palavra que não sentirei: pobre.

A palavra mais bela é aquela que não soa como palavra.
A palavra mais saudosa é aquela que vem na lágrima.
A palavra mais sonhadora é aquela que projeta um amor.
A palavra mais concreta é aquela que se deixa abstrair.

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