quarta-feira, 25 de maio de 2011

A estética da decepção: adeus às berinjelas


"[...]
Então, desanimamos. Adeus,tudo!
A mala pronta, o corpo desprendido,
resta a alegria de estar só, e mudo.

De que se formam nossos poemas? Onde?
Que sonho envenenado lhes responde,
se o poeta é um ressentido, e o mais são nuvens?"
(Carlos Drummond de Andrade, 1954).

Tenho vergonha de minha atitude alienada
por entregar minhas horas e dias,assim,
tão relapsamente, às pessoas que, julgo,
podem me preencher supostamente.

Tenho vergonha de me abandonar
à felicidade efêmera e rasa,
quando sei que ela me afasta de minhas
entranhas em feridas desde sempre.

Tenho vergonha de me deixar cegar
com falsos dizeres sobre o que devo
crer ser minha vida melhor vivida.

Tenho vergonha de me abandonar
e me deixar pedindo socorro para
que não morra a melancolia
essência única que me faz valer estar.

Tenho vergonha de admitir que deixei
passar lágrimas e pensamentos desesperados
diante de outras consciências que gritavam
suas verdades ao meu redor.

Tenho vergonha dessa palidez costumeira
ter dado lugar ao céu vivo e pássaros voando
quando se pode prever que um dia há
de ser de chuva triste e o outro também.

Tenho vergonha de admitir que desliguei
o relógio do tempo para dar lugar a uma vida
que qualquer um podia matar.

Tenho vergonha de ser, assim, reincidente
em meus erros e, na decepção dessa hora,
pedir para eu voltar.

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