domingo, 20 de janeiro de 2013

VIVER OU ESCREVER?

Os últimos quatro pequenos textos que publiquei não dizem nada.
Eles não conseguem dizer nada do que eu gostaria de ter dito.
São, apesar de registros, divagações e pensamentos soltos sobre um sentir indefinido.
Metáforas da vida, do transcorrer das horas, dos eventos que, supostamente, preenchem nosso vazio humano.
A vida tem a cor do intocável. Do buraco que deixa a dúvida sobre seu fim.
Até parece que o fundo do poço é um lugar ruim. Pelo menos, quando se toca o fundo, é possível dizer que se tocou em algo. Desconcertante é não encontrar o chão para tocar.
Li, pensei, refleti, visualizei como traduzir o vazio dos últimos quatro textos e concluo que todos eles ocultam uma historinha que eu não quis contar.
A pior compararação que posso fazer é entre minha dificuldade de contar as histórias embutidas em cada um dos últimos quatro textos com a dificuldade de Primo Levi, sobrevivente dos campos de concentração, na Segunda Guerra Mundial. Nem um centésimo da infeliz experiência de uma vida assim se compara com o que eu supostamente manifeste da minha. Devo a Jorge Forbes o acesso resumido de como Primo Levi desapareceu por seu escrever:

 É notável o exemplo de Primo Levi, italiano de Turim nascido em 1919, químico brilhante, preso em 1943, e que, por ser químico, conseguiu ficar trabalhando em um campo de concentração na Itália, antes de ir para o horror de Auschwitz. Passado a guerra, em 1947, escreveu um livro chamado “Isto é um Homem?” recusado inicialmente por seu editor, vindo a ser publicado só em 1957. A obra transformou-se em um dos clássicos da literatura mundial pela qualidade da escrita, pela verdade de sua posição e pela não-dramatização do texto. É o relato do dia-a-dia de uma pessoa progressivamente insultada. Em 1987, Primo Levi suicidou-se. Por quê?
[...] Primo Levi suicidou-se porque, ao ter escrito a sua experiência, a vida não lhe era mais suportável. O restante da dignidade humana – quando resta dignidade depois de um campo de concentração - recusou-se de maneira absoluta a uma sociedade capaz de fazer o que fez a seus cidadãos.*

Assim compreendido, sinto-me desencorajada a retomar o que ficou ocultado. Melhor esquecer-me de onde se originaram os sentimentos expressos. Talvez eu apenas quisesse encontrar uma explicação para esses dias em que não se pode escrever, não por falta de ter o que dizer, mas porque não queremos acessar nossas motivações interiores.

É melhor seguir o curso do rio a se debater em dias de cheia.


* Texto de Jorge Forbes, publicado em http://www.jorgeforbes.com.br/br/artigos/para-jorge-semprún.html.

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