Os últimos quatro pequenos textos que publiquei não dizem nada.
Eles não conseguem dizer nada do que eu gostaria de ter dito.
São, apesar de registros, divagações e pensamentos soltos sobre um sentir indefinido.
Metáforas da vida, do transcorrer das horas, dos eventos que, supostamente, preenchem nosso vazio humano.
A vida tem a cor do intocável. Do buraco que deixa a dúvida sobre seu fim.
Até parece que o fundo do poço é um lugar ruim. Pelo menos, quando se toca o fundo, é possível dizer que se tocou em algo. Desconcertante é não encontrar o chão para tocar.
Li, pensei, refleti, visualizei como traduzir o vazio dos últimos quatro textos e concluo que todos eles ocultam uma historinha que eu não quis contar.
A pior compararação que posso fazer é entre minha dificuldade de contar as histórias embutidas em cada um dos últimos quatro textos com a dificuldade de Primo Levi, sobrevivente dos campos de concentração, na Segunda Guerra Mundial. Nem um centésimo da infeliz experiência de uma vida assim se compara com o que eu supostamente manifeste da minha. Devo a Jorge Forbes o acesso resumido de como Primo Levi desapareceu por seu escrever:
É notável o exemplo de Primo Levi, italiano de Turim nascido em 1919, químico brilhante, preso em 1943, e que, por ser químico, conseguiu ficar trabalhando em um campo de concentração na Itália, antes de ir para o horror de Auschwitz. Passado a guerra, em 1947, escreveu um livro chamado “Isto é um Homem?” recusado inicialmente por seu editor, vindo a ser publicado só em 1957. A obra transformou-se em um dos clássicos da literatura mundial pela qualidade da escrita, pela verdade de sua posição e pela não-dramatização do texto. É o relato do dia-a-dia de uma pessoa progressivamente insultada. Em 1987, Primo Levi suicidou-se. Por quê?
[...] Primo Levi suicidou-se porque, ao ter escrito a sua experiência, a vida não lhe era mais suportável. O restante da dignidade humana – quando resta dignidade depois de um campo de concentração - recusou-se de maneira absoluta a uma sociedade capaz de fazer o que fez a seus cidadãos.*
Assim compreendido, sinto-me desencorajada a retomar o que ficou ocultado. Melhor esquecer-me de onde se originaram os sentimentos expressos. Talvez eu apenas quisesse encontrar uma explicação para esses dias em que não se pode escrever, não por falta de ter o que dizer, mas porque não queremos acessar nossas motivações interiores.
É melhor seguir o curso do rio a se debater em dias de cheia.
* Texto de Jorge Forbes, publicado em http://www.jorgeforbes.com.br/br/artigos/para-jorge-semprún.html.
domingo, 20 de janeiro de 2013
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