

Compreender-se mulher na infinita manifestação do que o humano pode ser e se tornar, requer leituras. É recorrente, também, existirem mulheres que nunca o farão. Eu, porém, continuo trilhando esse caminho do autoconhecimento, como uma saga.
Estou a ler, com alegria e entusiasmo, "Deslocamentos do feminino", de Maria Rita Kehl. A obra é resultado da sua pesquisa de doutorado e por isso, bastante densa e elucidativa no que diz respeito à compreensão de como nós, mulheres, construímos, ao longo da história, grande parte de nossa feminilidade. Na página 93, Kehl se debruça sobre um aspecto que me interessa particularmente, porque bem pode iluminar as razões de minha escrita ser preferencialmente autobiográfica. Ela escreve: "[...] gênero muito difundido no século XIX, este sim exclusivamente feminino - da 'escrita de si ', gênero confessional herdado do hábito solitário dos diários e das cartas, cultivado pelas mulheres em seu isolamento doméstico".
Teria a escrita uma função narcótica, termo que a autora utiliza no mesmo parágrafo, para lidar com as inseguranças e instabilidades da vida moderna? Os séculos anteriores ao XIX não representaram evidência de que as mulheres utilizaram a leitura e a escrita como recurso para denunciar as condições das quais eram portadoras. Porém, o século XIX inaugura definitivamente a presença feminina nos meios literários e elas o fizeram da forma como podiam.
As reflexões sobre o livro de Kehl de novo me remeteram a pensar sobre as mulheres e o amor. Teria o amor também uma função narcótica? Estaria o amor convocado para abater o frio que provoca a modernidade em todas nós? Sou eu parte do isolamento doméstico ao transformar minha escrita de mais de trinta anos em um solitário hábito de gênero confessional?
É bem provável que a resposta seja positiva, contudo, isto não me incomoda. O que me incomoda e pelo qual tenho antipatia e mal-estar é quando ouço depoimentos de mulheres que acreditam agir de modo dependente como que atendendo a algum tipo de desígnio fatal, concebido como próprio de nossa natureza, portanto dado e imutável e por isso autoritário.
Só consigo pensar em fazer duas perguntas:
- O que será que os homens deixaram de ganhar ao não serem expostos ao amor?
- O que será que as mulheres perderam ao serem expostas prioritariamente aos caprichos do coração?
Quanto a mim, deparo-me com algo, no livro de Kehl, que me deixou feliz, ainda que ser mulher no século XXI não constitua nenhum direito ao amor por destino: a possibilidade de escrever. Escrever para traçar o próprio destino. É isso que Emma Bovary invejava nos homens, segundo Naomi Schor.

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