domingo, 8 de novembro de 2009

Como dizer "te amo" sem palavras?


Maria Rita Kehl, em seu livro
"Deslocamentos do feminino", conduz-me a novas questões sobre a nossa humana condição, no que concerne ao uso da língua para expressar o que se vai conosco.


Nas pegadas de Saussure, a autora modifica a visão entre a "faculdade da linguagem", própria da espécie humana e a "língua" propriamente desenvolvida. Afirma ela que a língua não pode ser considerada uma manifestação da linguagem de um sujeito isolado e sim o resultado de uma massa falante, obedecendo a rumos diversos em cada época e em cada cultura. E, o que me parece mais pertinente ao ponto em que quero chegar, a língua é relativamente permeável às intervenções dos sujeitos. Dito de outra forma por Kehl, a linguagem articulada é "modificável ao longo do tempo em função de novas configurações sociais que demandam expressão".


Justificadas teoricamente as perguntas subsequentes, então quando escolho dizer "eu te amo", para expressar de uma vez por todas a minha entrega a um alguém, que, presumo, reconhecerá o seu significado, não estarei eu apenas dizendo o que já, quando sai de minha boca, se convencionou um clichê? Uma representação consensual da limitada condição humana em que me encontro e não uma frase que surtirá um efeito encantador no ouvinte?


Quantas vezes ao dia sou apenas a encarnação de um amontoado de frases que aprendi a dizer para me fazer existir e ser um pouco mais inteligível?


Que voz é essa que não tem sintaxe própria e que não pode deixar de dizer "eu te amo" ainda que pareça absolutamente banal?

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