segunda-feira, 25 de maio de 2026

A utilidade de um refúgio

 



Hesse, em sua obra magistral "O lobo da estepe" menciona constantemente a palavra "refúgio". Coloquei-me a pensar o que ela significa para mim, em particular. Lugar, refúgio é um lugar, uma localização geográfica: um canto da casa, do jardim, da montanha, do parque. Mas, de repente, dou-me conta e começo a ampliar o conceito e vislumbro que refúgio é muito mais do que um lugar para onde nos retiramos às vezes. Um momento do dia, um pensamento, uma sensação, uma memória infantil são refúgios também porque são feitos de nossa subjetividade.  

Hesse descreve a casa de sua infância, as cores e os odores de então, e eu, a sua semelhança, transporto- me para a época do Natal e da Páscoa, quando nossa casa ficava aconchegante pela limpeza e cuidado que recebia. Não era só uma mania de minha mãe fazer-nos movimentar móveis, vassouras e pano de tirar pó. Era muito mais do que isso. Ela estava sedimentando nossas futuras memórias, onde buscaríamos refúgio. Invocaríamos não o sacrifício e o tédio daquelas horas mas o lugar mágico em que se transformava nossa casa. Ao invés de lembrar que varremos, enceramos, lustramos e lavamos, nossas lembranças estariam presas no fim e no resultado da jornada, no cheiro do pinheirinho, nas velas, na cera, na comida especial, nos doces e no chocolate. 

Todos os dias de minha vida são feitos e preenchidos de refúgios.  

Obs: A casa da fotografia é um dos refúgios mais felizes que conserva a minha memória. É a casa do Opa e da Oma Franke, tão grande na minha concepção infantil; tão frágil a ponto de ser demolida indiscriminadamente, apesar da resistência das lembranças de todos que lá viveram. As memórias vivem, independentemente da vontade material das coisas.  

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