sábado, 1 de dezembro de 2018

Provisoriedade


Afirmo agora. Nego em seguida. Falo coisas que já repeti dezenas de vezes. Sei que não devia.
Assim sou eu. Dou minha palavra de que não farei isto e isso e aquilo de novo. Mas retomo.
Supero-me em me equivocar e me trair. Minha boca ensaia palavras e as diz com se fosse fogo
a cuspir da porta do fogão a lenha. Mas não devia.

Somos fiéis a nós mesmos muito mais que aos outros. Deveria me trair a todo instante. Reinventar-me. Como disse Clarice Lispector, abra a gaveta com a outra mão. Mas eu quase nunca penso assim
e continuo abrindo a gaveta puxando com força. Talvez, a mão mude, mas a força ainda é fiel ao
começo de mim.

Na terapia descobri, tristemente, que meu tédio é falta do que fazer (risos). Mas não. São projetos
que eu não tenho coragem de elaborar. Eu me acanho na cama e choro para não ter o trabalho de
me vestir e movimentar meu corpo. Meu corpo é muito preguiçoso. Eu odeio ter de fazer coisas.
Eu prefiro dizer que estou entediada.

Os dias são iguais e completamente diferentes ao meu humor. Às vezes fico bem quietinha e ouço
os ruídos do mundo e é isso que me anima. O barulho das vozes em risadas. Mas porquê, meu deus,
estão falando com tanta energia? O que sentem esses infelizes que não estão acabrunhados como eu?
Que maldito ânimo é esse que nunca sai pelas vozes de minha casa?

Depois tudo muda. Posso entender os outros como a mim mesma. E, geralmente, os estados de ânimo se confundem com outros estados de ânimo e já não sei do porquê da tristeza e da alegria de alguém.
Como eu.

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